terça-feira, 22 de julho de 2014

Ecco do coração

Cristiano Santos, Estela Paixão, Eloiza Paixão e Rafael Horta
Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Os amantes da música vocal podem comemorar, pois acabam de ganhar um representante autêntico: os paulistas do Grupo Ecco, que cantam dez músicas no prestigiado CD independente de estreia, “As Forças da Natureza”. Formado por Cristiano Santos (arranjos), as irmãs Eloiza e Estela Paixão e Rafael Horta, as contraltos se harmonizam com os barítonos em nuances que são verdadeiras declarações de amor e respeito à música.
Imaginei não ter sido fácil para o grupo escolher um repertório para a estreia, já que tiveram de visitar temas muitas vezes já consagrados, mas isso não foi problema algum para o quarteto, que vestiu de pedras preciosas suas vocalizações.
Para abrir esta audição dedicada ao bom gosto, nada melhor que uma interpretação totalmente à capela, mostrando-nos que não se trata de aventureiros, e sim de profundos conhecedores do assunto. A música escolhida para a empreitada, cheia de harmonizações e trechos em uníssono, foi “Sobradinho” (Sá e Guarabyra). A próxima canção é, particularmente, uma das minhas preferidas: “Espelho Cristalino” (Alceu Valença). Imagino a festa que foi gravar com o “capitão” Valença. Dá pra sentir a alegria do velho marujo brincando. Com um coro a quatro vozes, a introdução dá as boas-vindas. Rafael e o próprio Alceu dividem o solo. O arranjo é de uma qualidade impar – tenho plena convicção em afirmar que ficou melhor que o original, que já é um clássico.
O Ecco não é só um grupo vocal, mas um grupo que tem personalidade vocal, que canta como se tivesse parido as canções de seu próprio útero sonoro. Esse é o principal diferencial do trabalho. A terceira canção, “Rio Flora” (Pierre Aderne), é uma mostra disso. A pesquisa vocal foi buscar no ano de 1971 a canção “Mercy Mercy Me” (Mavin Gaye) que, 43 anos depois, resultou numa releitura à altura da canção. A música que dá título a este primeiro filho musical, “As Forças da Natureza” (João Nogueira / Paulo César Pinheiro), é um samba com execução feminina das irmãs Paixão, como ocorreu na gravação original, de 1977, com Clara Nunes. Para cantar a caetaneana “Eu e a Água” (Caetano Veloso), o grupo teve a participação especialíssima da cantora Fabiana Cozza. Só digo uma coisa: é impossível ouvi-la uma única vez. O palpitar da alma, o eco do coração, o arrepio nas vértebras se sente ao ouvir “Terra Desolada” (Beto Villares / Iara Rennó / Carlos Rennó). O primoroso arranjo do Cristiano provoca tudo isso.
Com inúmeras gravações, “Luar do Sertão” (Catulo da Paixão Cearense), ganha do quarteto roupa de domingo, pronta para sair e alçar novos voos. A Clássica “Estrada do Sol” (Antonio Carlos Jobim / Dolores Duran) é apresentada com participação especial da cantora Izzy Gordon. “Cidade e Rio” (Roberto Mendes / Jorge Portugal) finaliza a rica audição.
“Nós estamos muito felizes por colocar no mundo esse primeiro CD, fruto de muito trabalho, união, pesquisa e o desejo de fazer música com sentido, com razão de ser, para ecoar mensagens e sentimentos. Que prazer contar com instrumentistas que admiramos tanto e com as participações especiais de artistas dos quais, antes de mais nada, somos grandes fãs. O mais gostoso é poder compartilhar esse resultado com nosso público, que tem crescido a cada dia, e sem o qual nosso trabalho não existe!”, festeja Rafael Horta.
Acompanhado por Thiago David (violão), David Esteves (baixo) e Kabé Pinheiro (percussão), o grupo se apresenta no SESC Santana no próximo dia 2, às 19h, com entrada gratuita, na Av. Luiz Dumont Villares, 4.272 - Jardim São Paulo.
Ecco e suas músicas, ressoando entre a mente e o coração.


quarta-feira, 16 de julho de 2014

O som setentista de Paulo Mourão


Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Nesta semana nossa coluna se rende ao som setentista do jornalista, violeiro cantor, compositor mineiro e cidadão da estrada Paulo Mourão. O músico resgata dez canções do baú de uma carreira de quarenta anos para compor seu sexto CD, “Flores e Feridas”. Gravado na Bahia, o álbum foi produzido e arranjado por Esmera Rock. Em um papo via rede social o músico me contou que criou o grupo musical Bandarra nos anos 1970, em plena adolescência, e que foi mandado embora por seus colegas de banda. Na época ele já havia criado alguns temas que fazem parte deste trabalho, e o restante foi composto durante os três anos (dos 18 aos 21) em que ficou viajando entre o sertão e o agreste, muitas vezes de caminhão, mas uma boa parte a pé. “O legal é que são canções de minha juventude, do meu tempo de estrada, na acepção da palavra. São rocks, blues, baladas, todos compostos na viola de 10 cordas”, diz o violeiro.
Para os jovens leitores é uma oportunidade de ouvir o tipo de som que se fazia há 40 anos. Para os contemporâneos, pura nostalgia. As boas-vindas se dão com um bom e velho rock, “Sentir o Vento” (P.M.). Paulo sabia que no baú havia preciosidades que tinham de ser gravadas. Agora ele nos apresenta a bela balada “Algo Para Ser” (P.M.). De suas andanças por esse Brasil ele canta na terceira faixa, “Só Poeira” (P.M.). A letra da balada declara: “Só poeira dos passos / De um caminhante triste / A poeira juntou com lágrimas / Em lama se transformou / O dia que não despontou / O sol que não clareou / Estrela que nunca brilhou / Parece até que a vida já se acabou”.
Para os que curtem o gênero, o artista reservou o “Velho Bluesão Desbotado” (P.M.). Nele, Mourão descreve suas aventuras e desventuras do amor aos 17 anos. Vale conferir. A quinta canção é um rock-testemunho, “Meus Companheiros” (P.M.). A música fala dos tempos difíceis, após prisão do artista, em Belém. Sob tortura e maus-tratos, queriam que ele falasse sobre a Guerrilha do Araguaia, de 1974. Na época ele tinha 19. Todo forasteiro – e ele, por ser estradeiro –, era suspeito. Paulo teve dentes quebrados, ficou muito machucado, mas não conseguiram violar sua índole. O “companheiro” era ele mesmo, pois sempre viajou sozinho, mesmo que se enturmasse no caminho. Uma das canções mais belas do CD: “Dentes partidos, sorriso franco / Boca estragada, palavra limpa / Olhos vermelhos, poeira da estrada / Olhos vermelhos, clareza e nada”. Em “Linda Canção” (P.M.), a letra da balada diz: “Meu bem, conte sempre comigo / Pra sorrir, pra lutar, pra fugir, pra chorar”.
Aos 59 anos, o artista revisita sua infância e canta em “Menino de Rua” (P.M.) os versos: “Sempre tive medo / De ser o que sou / A temer o que ouvir / Seja por bem ou por mal”. Para finalizar, Paulo apresenta “Se” (P.M.), que descreve o quanto a vida tem sido dura. Em “Estrela Morta” (P.M.), mais um blues e uma alusão à estrela, que é seu próprio coração. E “Bege” (P.M.) dá um tom de esperança à compilação. Destaque para o diálogo entre a viola e acordeon.

O belo e o sofrido da vida se ouve em “Flores e Feridas”.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Ligiana, entre trilhas e clareiras

Foto: Vinicius Berger
Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


            Quantos cantores frequentaram cursos de canto em conservatórios renomados aqui no Brasil e mundo afora e foram desmotivados com a famosa frase “Você nunca vai conseguir cantar, desista”? O mesmo ocorreu com a cantora e compositora brasiliense Ligiana Costa que, após ser desencorajada por sua professora no conservatório Real de Haia (Holanda) mergulhou profundamente nos estudos musicais e concluiu mestrado e doutorado na Itália. Depois de cantar nas noites de Paris, retorna ao Brasil e, em 2009, lança seu primeiro CD, “De Amor e Mar”..
            Seu segundo álbum – intitulado “Floresta” em homenagem à avó, Floresta Pires Araújo – é um mergulho na poesia e na experimentação que a jovem artista vem desenvolvendo, já que no primeiro trabalho atuou mais como intérprete. Uma homenagem ao Maranhão, terra da avó, ouviremos também entre as 11 canções do CD, que foi gravado na Bahia, com arranjos e direção musical de Letieres Leite.
            A cantora não teve dúvida e, já na primeira faixa, “Malabares” (Ligiana Costa / Celso Araújo / Marcel Martins), disse a que veio: “Canto para quem cultiva carros e flores / Canto pros que plantam bananeira no asfalto / Calados no sinal, fechados num silêncio ambulante”. Na segunda canção, “Desperta” (Ligiana Costa / Juliana Kehl), temos um bom samba com uma introdução cheia de efeitos. Destaque para o piano Rhodes e a letra de apelo à reconciliação: “Eu não acredito agora que o sol deu pra ferver / Agora que o mar deu pra subir / Você não vai me procurar / Você não vai se arrepender / E voltar pro seu lugar”. Das vivências na França, a artista nos apresenta “Rouge” (Ligiana Costa / Lucas Paes). Com um arranjo moderno, experimental, tanto no instrumental como no vocal, a cantora assina a bela “Esmeralda”.
            Acho que Ligiana deveria mandar um CD autografado para a professora que a desclassificou, pois além de compor e cantar bem, também sabe pesquisar, como no caso da quinta canção, que é um canto tradicional de domínio público do Haiti, “La Mizè Pa Dous”. Uma das canções mais belas do CD, “Canção de Sousândrade” (Celso Araújo / Joaquim de Sousândrade), tem nas cordas o sentimento que vem da alma da cantora: uma mistura de melancolia com saudade do que não sabemos o que é. A sétima canção é um convite ao salão para dançarmos uma autêntica “Salsa Petrarca”, assinada pela artista.
            A oitava canção tem a rubrica de seu pai, Celso Araújo, na versão de “Vem a Primavera” (Pino Daniele). Aqui a cantora empresta a voz à Ligiana intérprete que, com emoção, permite-nos trafegar por ruas poéticas em busca do amor. Deixe as dissonâncias vocais e os ecos sonoros de “Corda e Mearim” (Ligiana Costa / Letieres Leite) lhe conduzirem entre os versos “A floresta quando chora / A floresta quando deita / A floresta quando implora / A floresta que incendeia / E que se banha entre dois rios / Que se abraçam em sua barra”.
            Finalizando essa viagem poética, ouviremos um boi maranhense, “Boi de Catirina” (Ronaldo Mota) e a linda parceria com Chico César em “Pássaro”.
            Simplesmente... continue a cantar.



quarta-feira, 2 de julho de 2014

O tango por nossas cordas

Agradecimentos especiais a Patricia Chammas


          Prestes a completar dez anos de atividade, a jovem Orquestra do Estado do Mato Grosso foi formada em 2005, numa iniciativa do Governo do Estado de Mato Grosso, em parceria com o Ministério da Cultura e empresas privadas de diversos segmentos. O grupo, orgulho para nós brasileiros, valoriza a cultura mato-grossense em diálogo com a música universal, definindo uma sonoridade singular, de repertório e timbres únicos. Os números da orquestra, da sua formação até 2013, são surpreendentes: 527 concertos gratuitos ou a preços populares foram realizados e 200 mil pessoas, aproximadamente, assistiram aos concertos da OEMT de 2005 a 2013. Vinte e quatro municípios mato-grossenses foram visitados, além de 95 municípios em 23 estados brasileiros, mais o Distrito Federal. Uma turnê internacional levou a OEMT ao “Festival Misiones de Chiquitos”, na Bolívia. Foram apresentados 74 programas com repertórios distintos em três séries de concertos.
A orquestra já soma gravações de quatro DVDs e nove álbuns. O nono CD, “Tango”, é mais um produto do selo e gravadora Kuarup, que não mede esforços para mostrar a música de qualidade que se faz neste país, seja ela popular ou erudita. Com regência do jovem e talentosíssimo maestro Leandro Carvalho, a OEMT mergulhou desta vez no universo musical de Astor Pantaleón Piazzolla (1921-1992) e nos presenteou com nove temas do mestre, trazendo o tango argentino a terras brasileiras, com participações especiais do bandoneonista argentino Carlos Corrales – que além de solista, assina dois temas –, e do violinista Pablo Agri, do contrabaixista Juan Pablo Navarro e do experiente violoncelista Diego Sanchez.
Este CD não pode faltar a quem aprecia a música universal. Ele nos permite um mergulho nos modernos arranjos produzidos para o tango de Piazzolla. Na abertura desta viagem sonora me deparo com “Libertango” (A.P.). A harmonia das cordas com o bandoneón é contemplada no solo de guitarra de Sidney Duarte, mostrando que a orquestra é capaz de tornar mais belo o que, originalmente, já é. Não dá tempo de respirar: é um clássico atrás do outro. Agora é a vez de “Michelangelo 70” (A.P.), numa interpretação ímpar da jovem orquestra.
Melancólico e sublime é o solo do bandeneón de Corrales para “Tango del Ángel” (A.P.). Uma das composições mais famosas de Piazzolla é o belo tango “Adiós Nonino”, composto em 1959, dias depois da morte de seu pai. Novo destaque para Carlos Corrales, que sola uma melodia recheada de tristeza e saudade. Aplausos. E como é bom poder ouvir o mais belo dos tangos, “La Cumparsita” (Geraldo Rodrigues/ Enrique Maroni/ Pascoal Contursi)! Essa releitura ficou divina e me transportou ao Uruguai de 1917, na época de sua composição. A orquestra ainda executa de forma brilhante os temas “Oblivion”(Astor Piazzola/ David Joel) “Verdarito”, “Escualo”, “Bandoneón, Guitarra y Banjo” de Piazzolla. As duas faixas finais “Cemar” e “Ony” são composições do grande bandoneonista Carlos Corrales, que contribuiu de forma brilhante para este CD, assinando os arranjos.
Um brinde à orquestra!
                                

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Três Tons de Mautner

Foto Lais Merini
Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


 As novas gerações estão sendo presenteadas com a reedição em CD dos três primeiros vinis da carreira do “filho do holocausto”, como é conhecido o emblemático multiartista Jorge Mautner. A Universal Music colocou no mercado desde fevereiro deste ano a caixa “Três Tons de Jorge Mautner”, que trás os títulos: “Para Iluminar a Cidade” (1972), “Jorge Mautner” (1974) e “Mil e Uma Noites de Bagdá” (1976). É uma oportunidade de sabermos o que se passava na cabeça fervorosa desse artista naquela década e poder conferir como foram as gravações, num comparativo com os dias de hoje. O primeiro registra o show realizado em abril de 1972 no Teatro Opinião, com nove faixas totalmente ao vivo. O álbum traz uma seleção do que Mautner – cujas composições começaram a surgir no final dos anos 1950 – fez musicalmente até então. O trabalho seguinte representa a consolidação da parceria do cantor e compositor com Nelson Jacobina, que funcionava como sua espinha dorsal. Com o falecimento do amigo em 2012, a música de Mautner com certeza está tomando outros rumos. Por fim, “Mil e Uma Noites de Bagdá” é um disco experimental produzido pela dupla, que vai de temáticas orientais a batuques de candomblé.
Chegou o momento de lançar esta obra oficialmente em palcos paulistanos. O teatro Paulo Autran do SESC Pinheiros recebe o show nos dias 27, 28 e 29 de junho – sexta e sábado, às 21 horas, e domingo, às 18 horas. O espetáculo conta com a participação especial de Caetano Veloso, parceiro e amigo do compositor com quem gravou o disco “Eu Não Peço Desculpa” (2002). Além de Jorge Mautner (voz e violino), a banda é formada por Bem Gil (voz e guitarra), Bruno Di Lullo (baixo e voz), Marcelo Cardoso (violão e voz) e Rafael Rocha (bateria e voz). O repertório, predominantemente autoral, traz “Vampiro”, “Super Mulher”, “Anjo Infernal”, “Quero Ser Locomotiva”, “Sapo Cururu”, “Samba dos Animais”, “O Relógio Quebrou” e parcerias com Caetano (“Tarado” e “Todo Errado”) e Nelson Jacobina (“Herói das Estrelas”, “Homem Bomba” e “Maracatu Atômico”), entre outras.
Quem é Jorge Mautner? É importante para os da nova geração, que ainda não descobriram o Brasil musicalmente, terem acesso ao que esse fazedor de arte produziu nos seus mais de cinquenta anos de vida artística. Somam-se 14 álbuns e uma vasta literatura que conta com os seguintes títulos: Deus da Chuva e da Morte (1962) / Kaos (1963) / O Vigarista Jorge (1965) / Narciso em Tarde Cinza (1965) / Fragmentos de Sabonete (1973) / Panfletos da Nova Era (1978) / Sexo do Crepúsculo (1982) / Poesias de Amor e de Morte (1982) / Fundamentos do Kaos (1985) / Miséria Dourada (1993) / Fragmentos de Sabonete e Outros Fragmentos (1995) / Mitologia do Kaos (2002) / Floresta Verde Esmeralda (2002). O artista foi eternizado no documentário “Jorge Mautner - O Filho do Holocausto”, de 2012. Com direção e roteiros de Heitor D’Alincourt e Pedro Bial, o filme reúne imagens raras que remontam à vida rica e cheia de reviravoltas de Mautner.
Vale mergulhar nesse universo cultural.