quarta-feira, 24 de maio de 2017

Snegs


Edição e revisão: Marsel Botelho
                                                                                                                 

           A viagem é garantida ao ouvir esta obra de arte sonora. Viva Manito, Pedrinho e Pedrão mestres na arte de viagens astral através do sons



Um dos mais esperados relançamentos em CD de todos os tempos:  “Snegs – Som Nosso de Cada Dia”, originalmente lançado no formato vinil em 1974, acaba de ganhar uma remasterização à altura do álbum e seu encarte é sem dúvida uma obra de arte à parte. Os amantes do “progressivo” e os jovens que vão descobrir essa viagem a convite do “SNCD”, terão em “Snegs” oito faixas que mudarão a concepção sonora de quem o ouvir. Formado por Manito, Pedrinho Batera e Pedro Baldanza (Pedrão), o “Som Nosso de Cada Dia” é considerado pela crítica especializada uma das maiores bandas de “rock progressivo” brasileira. Um trio que era uma “porrada” sonora no palco: essa é a definição, se você perguntar a qualquer felizardo que viu ao vivo essa maravilha. Assim como os britânicos do “ELP”, eles poderiam ter assumido a sigla “MPP”, levando-se em conta que a velha guitarra não tinha lugar nessa “sonzera” toda. Manito e seu “harmmond”, sintetizadores, saxe, flautas, piano e violinos. Pedrinho quebrando tudo na batera e a pulsação firme de um coração no baixo de Pedrão.

Esse relançamento é algo que nos alegra muito e ao mesmo tempo nos faz pensar nessas duas figuras ímpares que foram Pedrinho e Manito: o primeiro faleceu em 1997 e o segundo em 2011, a eles então a dedicatória: “Tenho o maior prazer e honra em lançar essa nova remasterização do “Snegs do SNCD”. O trabalho magnífico de George Solano, que se dedicou com afinco e muito amor em frame por frame, resgatando toda a essência da gravação. O trabalho gráfico ficou por conta do jovem Fabricio Bizu, que preservou a capa original, criando uma incrível atmosfera de formatação tripla e dois encartes com muitas fotos, um resgate histórico da mais alta qualidade. Atrevo-me a dizer que é sem dúvida alguma um dos melhores trabalhos lançados nos últimos tempos”, diz Pedrão por telefone.

Um momento marcante da história do “SNCD” ocorreu no ano de 1975, quando o trio abriu o “show” de Alice Cooper no Rio de Janeiro, assim como em São Paulo, para um público estimado de mais de 150 mil pessoas: o detalhe é que a banda roubou a cena, levando o público ao delírio, deixando a atração principal em segundo plano. Ouvir “Snegs” é algo indescritível, tem de deixar o som penetrar os poros e fazer uma viagem sem destino: apenas feche os olhos, que um arco-íris de sensações tornarão seu dia mais prazeroso e significativo. Para começar a jornada, você ouvirá “Sinal da Paranoia”: o instrumental e suas variações, a “vibe” que invade e a letra que se eterniza: “Essa obsessão de chegar.../O terror de não vir a ser o que se pensa.../Esse eterno pensar nas coisas eternas/Que não duram mais que um dia/Que não duram mais que um dia/A tortura à procura da essência/O barulho aterroriza, tranca, lacra o peito/ Sinal da paranoia, sinal da paranoia, sinal da paranoia...”

Escrever sobre “O Som Nosso de Cada Dia”, e em especial sobre o álbum “Snegs”, levaria horas, portanto, vou dar uma dica preciosa: entre em contato com o próprio Pedro Baldanza e adquira essa maravilha pelo “whatsapp” 11997718780 e, se quiser contratar o “show”, MoshiMoshi Produtora: 11992586494 – Roberto Oka.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Melhor que seja raro


Edição e revisão: Marsel Botelho
                                                                                                                 

           As melodias de Rondon vestidas por parceiros poetas são verdadeiros balsamos para ouvidos aguçados





Entre tantos trabalhos maravilhosos que chegam para minha apreciação, abro o “sedex” que chega do Pantanal – Mato Grosso e, para minha alegria, é o novo CD do compositor, violonista e cantor paulista Guilherme Rondon, “Melhor Que Seja Raro”, recente álbum do músico, que foi criado em terras pantaneiras, lugar que escolheu para ser sua morada. Rondon é um criador de melodias e agregador de poetas que as vestem. O CD apresenta 13 temas e foi produzido pelo próprio músico em parceria com Alex Cavallieri.

“Brincadeira na beira do mundo/Quem não sabe não faça/Coração quanto mais é profundo a saudade não passa, é .../Nem sempre a verdade que o amor me diz me deixa feliz”: esses versos compõe a canção “Brincadeira na beira” (Guilherme Rondon e Alexandre Lemos), que abre o álbum.  Guilherme faz dueto com Léo Minax e nos convida a uma audição rica em melodia e poesia. A canção que dá título ao CD, denominada “Melhor Que Seja Rara” (Guilherme Rondon/Zélia Duncan), é de uma delicadeza única e nela os violões dão as boas-vindas com uma introdução que nos remete aos encantadores versos, poeticamente bem elaborados, de Duncan. Voz, piano, baixo e “cello”: esse refinado quarteto nos apresenta a bela “De Que Reino Sou Rei” (Guilherme Rondon/Iso Fischer). A interpretação de Rondon é sublime, o “cello” de Morelenbaum nos coloca dentro de cada verso com a mesma força emocional que faz com que nos sintamos partes vivas de uma cena de teatro.

 É hora de fazer uma fogueira na beira do rio e contemplar o luar ao som de “Vento Veio Contar” (Guilherme Rondon/Zé Edu), com participação especial de Gilson Espindola, que faz vocal e divide os versos com Guilherme: a canção é uma pintura sonora, linda como uma paisagem pantaneira. Em “Enxurrada” (Guilherme Rondon/Alexandre Lemos), destaca-se o lamento da gaita de Micca, que ainda pilota a guitarra solo numa levada “pop” recheada de poesia. Quando escrevemos ou falamos em música que vem do Pantanal, imediatamente somos remetidos à sonoplastia de guarânias, polcas e chamamés de lá. Guilherme Rondon, que domina com maestria a fusão de ritmos ternários da fronteira, vai além dos limites pantaneiros – universalizando o regional, rompendo fronteiras com a arte local.

“Pão a gente faz para dividir/E a vida brota no grão”, diz a letra de “Pão pra dividir” (Guilherme Rondon/Alexandre Lemos). Mais uma criação da dupla Rondon/Lemos: “Entre o Rio e o Mar”, a riqueza sonora se sente na percussão que transborda e nos envolve. “A Gente se Fala” (Guilherme Rondon/Alexandre Lemos) é esplendorosa e dialoga com o som de Ivan Lins. Sua introdução tem a voz do bandolim de Webster Santos. Guilherme, em parceira com Luiz Carlos Sá (da dupla com Guarabyra), compôs a poética “Alma e Razão” e conta com o dueto de Américo e Nando. A dor da separação é eternizada na canção “Mentira Não” (Guilherme Rondon /Alexandre Lemos). O poeta mineiro Murilo Antunes rega a melodia de Rondon com o poema matinal “Amor perfeito é só uma flor”. Para finalizar, “Nas Ruas de São Paulo” e “ Rasta Feliz”, com participação especial de Barra da Saia. CD indispensável.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Colocando o sonho em prática


Edição e revisão: Marsel Botelho
                                                                                                                 

           A Juventude musical de Antony e Ricardo   nos conquista e nos faz acreditar que há uma luz no fim do túnel 




Dá gosto ouvir jovens produzindo música de qualidade em tempos musicais tão conturbados, muito raro na grande mídia algo com tal referencial de qualidade:  Antony Ventura e Ricardo Santiago são provas vivas de que nem tudo está perdido. Os jovens músicos acabam de lançar seu primeiro CD “Quando Inhambu Cantou No Meu Quintal”, de belíssimo e sugestivo nome, o trabalho foi produzido por Alan Oliveira. O álbum conta com oito temas autorais, que traduzem as influências vividas por cada um: do “folk” ao “blues” urbano, da balada romântica à cantiga de roda, os músicos trilham seus próprios caminhos com uma original linguagem poética marcada por um forte sentimento existencial. Ambos são moradores do Bairro de Bonsucesso em Guarulhos – SP, Antony e Ricardo, cuja refinação melódica é resultado de muita pesquisa musical e de trabalho intelectual incansável, trazem-nos a sonoridade da cidade e do campo, numa conjunção inteligente e elegante. Antony, no auge dos seus 21 anos, gravou viola, violão, guitarra e dividiu com o parceiro Santiago os vocais.

Para abrir as audições, “1992” (RS/AV), música que marca o ano de nascimento de Ricardo e traduz as expectativas que o músico tem em relação à vida e à carreira, como diz a letra da canção: “E nesses últimos dez anos eu não me enganei nem menti”. A segunda canção é uma resposta aos desencontros e às lembranças que ficaram para trás, que ganhou o nome de “Quase Um Blues” (RS/AV). Em “Cantiga do Viver” (AV), Antony e Ricardo têm a participação especialíssima das “Cantadeiras da Comunidade Sagrada Família”, formada por Dona Jaci, Dona Francisca, Dona Aurelina e Dona Célia. A canção tem uma melodia que nos remete às cantorias de novenas que acontecem nos sertões e, ao mesmo tempo, aos cantos das Lavadeiras de Almenara –MG.

Um típico “folk” se ouve em “Caminheiro e o Vento” (RS). Os meninos beberam forte em diversas fontes e mostram que estão preparados para encarar a estrada. Como escrevi no início, “dá gosto ouvir” um repertório tão verdadeiro, fruto do ofício de dois talentosos jovens, que se sobressaem e nos salvam de qualquer marasmo musical. Esse CD é um convite a um bom papo, à noite enluarada, a compartilhar de coração nossa frágil existência: “Esvaziei meu coração quando você chegou/Deixei tudo arrumado pra você se ajeitar/entrar, sentar e ficar/Teu olhar então me ocupou/foi preenchendo bem devagar/E sem pressa se pôs a ficar...”, diz a letra de “Hospedeiro” (AV). Um momento romântico e recheado de poesia é o que a dupla apresenta na sexta faixa, “Canção de Amor (des) Oriente” (RS).

Antony Ventura nos presenteia com um belo pontilhado de viola e nos faz viajar em suas cordas sem destino e sem tempo marcado para voltar. Bela melodia recheada de saudade, de sentimento, de vontade de viver. A essa beleza ele deu o nome de “Pitiguiariando”. Para finalizar, um tema do produtor do CD: “ Soltar Balões” (Alan Oliveira). Para ouvir essa maravilha, você pode baixar pelas plataformas digitais ou comprar o CD pelo e-mail: quandoinhambu@gmail.com

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Belchior vive

Edição e revisão: Marsel Botelho
                                                                                                                 

                                                                             Suas canções são eternas




“Ele fez a viagem ouvindo música clássica.” Assim foi decretada a morte do Artista Belchior. Informação dada pela companheira Edna Prometeu à imprensa local de Santa Cruz do Sul (RS), cidade do interior gaúcho onde o cantor morava. Seu nome de registro era Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, conhecido por todos simplesmente como Belchior, um dos maiores expoentes da música brasileira, nascido em Sobral (Ceará) no dia 26 de outubro de 1946, terra natal também do humorista Renato Aragão. Sua linguagem poética destacava-se na lista dos jovens e talentosos artistas cearenses de sua geração que viriam a influenciar o cenário musical nacional por mais de duas décadas, cuja marca personalíssima da sonoridade que representava conquistou tanto nomes já consagrados, quanto as pessoas comuns.

Uma trajetória de mais de 40 anos de música viva dos setenta anos vividos. Antes de ir para a música, o jovem Belchior havia estudado Filosofia e Humanidades e cursava o quarto ano de medicina, quando, em 1971, resolveu se dedicar integralmente à música, sob protesto e reprovação provisória da família.

No Rio de Janeiro, no primeiro ano da década de 70, participou e venceu o IV Festival Universitário da MPB, com a canção “Na Hora do Almoço”, cantada por Jorge Melo e Jorge Teles. “No centro da sala, diante da mesa/No fundo do prato, comida e tristeza/A gente se olha, se toca e se cala/E se desentende no instante em que fala./Medo. Medo. Medo...” Música marco de sua estreia em disco pela gravadora Copacabana. Eis que em 1972 aparece Elis Regina na vida do compositor e grava a canção, feita em parceria com Fagner, “Mucuripe”. Durante a escolha de repertório para o “Show e LP Falso Brilhante” de 1976, Elis recebe a fita cassete com as músicas: “Velha Roupa Colorida” e “Como Nossos Pais”. As músicas gravadas por Elis apresentaram o compositor cearense ao Brasil. Fonte de pesquisa:Wikipédia

Lembro-me, ainda criança, época em que se costumava ouvir em casa muitos LPs na “radiola”, desse disco da Elis, que tocava muito. Logo o vinil do Belchior entrou na casa dos brasileiros, e de forma especial invadiria minha vida e a de tantos outros jovens da época. “Alucinação” foi um hino do fim dos anos 70 e meados dos anos 80. “Eu não estou interessado/Em nenhuma teoria/Em nenhuma fantasia/Nem no algo mais/Nem em tinta pro meu rosto/Ou oba oba, ou melodia/Para acompanhar bocejos/Sonhos matinais...” 

Das minhas memórias joviais do interior pernambucano em Palmares, um tema jamais foi esquecido: “Medo de Avião”, a canção tem uma certa magia e se fazia dela uma espécie de correio elegante nas festas: mandava-se, através do serviço de alto falante dos bailes, a música como dedicatória à jovem mais bonita da festa e, muitas vezes, elas nem chegavam a saber quem a ofereceu: “Foi por medo de avião/Que eu segurei pela primeira vez a tua mão/Um gole de conhaque/Aquele toque em teu cetim/Que coisa adolescente/James Dean.”

Inexoravelmente, o corpo se foi em 30 de abril de 2017, mas a música será perpetuada entre os viventes que por aqui estiverem. Sua obra será eterna. Descanse em paz, poeta.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Salve Lua no Talento MPB

Edição e revisão: Marsel Botelho
                                                                                                                 

                                                                             Justa homenagem ao rei do baião



“Luiz, respeita Januário/Luiz, tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso/E com ele ninguém vai, Luiz/Respeita os oito baixo do teu pai” (Respeita Januário - Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira). Será nessa pegada que o projeto Talento MPB recebe a sanfoneira e cantora Adriana Sanchez para apresentar o repertório do álbum CD/DVD “Salve Lua – Tributo a Luiz Gonzaga”. Lançado em março de 2015, a artista, que também integra o grupo Barra da Saia, traz para o palco sucessos da carreira do mestre Lua e tem como convidados especiais o pianista, cantor e compositor Breno Ruiz e as meninas do Barra da Saia. 

Adriana Sanchez, a paulista que domina como poucos o sacolejar do fole, conseguiu, em 16 temas (apenas no DVD), doar-se de corpo e alma à música do mestre, reinventando-os como intérprete e inovando como artista sem se desconectar da beleza original que identifica cada um dos temas. Das inúmeras gravações de “Asa Branca” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) que ouvi ao longo do tempo, destaco a original de Seu Luiz e a do grupo pernambucano Quinteto Violado, que a recriou de forma a se perpetuar, mas, ouvindo os primeiros acordes vindos do fole de Adriana, me rendo às harmonias criadas para esse voo. A cantora põe o toque sensual feminino na interpretação de “Juazeiro” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira). Um dos temas mais belos compostos pela dupla Gonzaga e Teixeira, “Assum Preto”, ganha de Adriana um arranjo apoteótico e um jogo de fole lembrando o mestre Lua. No formato CD, Sanchez conta com a participação especial do maranhense Zeca Baleiro.

No embalo das festas juninas, o arrasta-pé “Olha pro Céu” (Luiz Gonzaga/José Fernandes) nos convida a entrar no salão. Um dos momentos belos do “show” é a introdução do violão de Edson Guidetti para “Baião” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira). Além de excepcional cantora, Adriana nos presenteia com o pé-de-serra “Roseira do Norte” (Pedro Sertanejo/Zé Gonzaga), inclusa no álbum como música incidental. Aprovadíssima! O “hammond” de Lulu faz o cortejo para o floreio da sanfona de Adriana na maravilhosa “Ovo de Cordorna” (Severino Ramos). Usando da tecnologia dos “loops”, a artista dobra as vozes na introdução de “Xote das Meninas” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas). O ator e cantor Gero Camilo participa da gravação no formato CD.

 Em “Cintura Fina” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), a artista ainda canta pequenos trechos de “Riacho do Navio”. Vale conferir.  Na clássica “Sabiá” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), Adriana inova e faz uso de batidas eletrônicas e “samplers”, que nos remetem ao som dos estalos da fogueira em “Último Pau de Arara”. Para a emblemática “ABC do Sertão” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), a tecnologia em prol da arte com uso de “vocoder” e outros recursos eletrônicos adorna a música com modernidade. Em “Nem se Despediu de Mim” (Luiz Gonzaga/João Silva), a canção é um convite irresistível para arrastar o pé numa sala de reboco. Quer ouvir essas e muito mais? Compareça nesta quarta-feira, dia 26, às 21 horas, ao Bar Brahma. Av. São João com Av. Ipiranga. O Projeto Talento MPB recebe Adriana Sanchez – Salve Lua!