quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Cláudia Beija, chegando para ficar

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Às vezes precisamos esperar um certo tempo para termos a certeza de que chegou a hora de assumirmos determinadas decisões. Acho que é assim que a pernambucana Cláudia Beija se vê ao lançar seu primeiro CD solo, com mais de 30 anos de carreira, boa parte dela como backing vocal de artistas consagrados. Seu primeiro CD, A.M.A.T.E.R, resume bem essa necessidade da cantora em mostrar que pode assumir o palco e fazer a canção chegar de forma sublime aos ouvidos daqueles de bom gosto musical. Produzido por Caca Barretto, o álbum conta com 14 canções e faz a ponte entre o clássico e o contemporâneo. Dona de uma voz doce e melodicamente afinada, Cláudia é capaz de nos conquistar da primeira à ultima música, tornando-nos personagens de suas canções. O álbum já é cotado como um dos mais belos trabalhos produzidos na “terra do frevo”.
O CD abre com a música-convite “Vamos a Marte” (Henrique Macêdo/Paulo Marcondes). Nela, a poesia se funde à canção e a doçura que salta da voz de Beija dá o tom da busca da liberdade e da vontade de ser feliz, seja lá onde for. Com um arranjo de cordas e uma percussão que trafega pela melancolia do poema, numa das mais belas do álbum, Cláudia se veste de emoção para, na tristeza do canto, nos agraciar com “Engano Seu” (Diogo Andrade). Neste primeiro trabalho Cláudia abriu o leque para os compositores da sua terra e, dos parceiros Júlio Morais/Ylana Queiroga, gravou “Nossa”. Com uma interpretação impecável a cantora pernambucana gasta seu inglês ao interpretar a “quarentona” “Nothing to Lose” (Henry Mancini/Donald Black).
O tão gravado “Poeta da Vila”, Noel Rosa, ganha de Beija uma interpretação digna de sua canção, “Último Desejo”, que nos transporta para um botequim onde iremos, entre um gole e outro, afogar nossas desilusões. “Terminei Indo” (China/Yuri Queiroga/Jr. Black) é mais uma boa canção dos compositores da cena pernambucana. Na sequência, Cláudia presta uma linda homenagem a uma das bandas mais importantes da música brasileira, a “Banda de Pau e Corda”. Ao gravar “Vivência” (Sérgio de Andrade/Waltinho), de 1973, a cantora entoa as notas solenemente, permitindo-nos voltar no tempo. Um arranjo irrepreensível.
Uma canção mais introspectiva se ouve em “Um Dia Lindo de Morrer” (China), em que a intérprete tem a participação especial do autor. Cláudia investe em seu lado compositora e grava “Eu Saio (Um Dia)” (Cláudia Beija/Caca Barretto). Uma sátira que reflete bem os festivais de música por este país afora, ouviremos em “Só que Deram Zero pro Bedeu” (Luiz Vagner). “O Habitat da Felicidade” (Lula Queiroga/Lucky Luciano) é canção pra se ouvir com a alma. Quer ouvir um bom samba? Então é só aumentar o som em “Samba Tem” (Ze Manoel/Guilliard Pereira). Com participação especialíssima de Elba Ramalho, com quem Cláudia Beija divide os vocais, ouve-se “Flor de Maracujá” (João Donato/Lysias Enio). Para finalizar este primeiro de muitos, uma ciranda praieira em “Fonte” (Caca Barretto/Paulo Marcondes).

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Vinte anos de “Noites com Sol"

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Um dos CDs mais importantes da música brasileira – “Noites com Sol”, do compositor e cantor mineiro, Flávio Venturini – acaba de completar 20 anos do seu lançamento. O ano era 1994, ano do Tetra e ano em que a carreira de Flávio também tomava novos rumos pela parceria com sua empresária e sócia, Fabiane Costa. Depois de gravar dois LPs com o grupo O Terço e oito com a banda 14 Bis, Flávio parte para a carreira solo e grava os LPs/CDs “Nascente” (1982), “Andarilho” (1985), “Cidade Veloz” (1990) e “Flávio Venturini ao Vivo” (1992). “Noites com Sol” (1994) saiu pela gravadora Velas, do Ivan Lins e do Vitor Martins. O álbum é considerado um divisor de águas na carreira deste que é um dos maiores melodistas da MPB de todos os tempos.
Produzido por Torcuato Mariano, o CD conta com 11 canções, sendo duas regravações e uma versão. Flávio encontrou em Torcuato a parceria certa e, nela, o fio condutor para o sucesso alcançado por esse trabalho. O álbum lhe rendeu seu primeiro “Disco de Ouro”. O show percorreu os grandes palcos do País e o lançamento em São Paulo ocorreu nos dias 4 e 5 de abril de 1995, no Teatro TUCA. Flávio volta ao pop, sem abandonar o romantismo de suas baladas. O CD emplacou em duas novelas globais: “Fera Ferida” com a canção-título “Noites com Sol” e “Quatro por Quatro”, com a clássica “Clube da Esquina Nº 2”. Além de uma super banda formada por Pantico Rocha (bateria), Marcelo Mariano (baixo) e Torcuato Mariano (guitarra), as gravações contaram com as participações especiais de Marcelo Martins (sax), Nico Assumpção e Arthur Maia (baixo), Cláudio Venturini (guitarra), Rildo Hora (gaita), Toninho Horta (violão), Marcelo Costa (percussão), os cantores Ritchie, Ana Zinger, Julio Borges e o quarteto vocal Be Happy.
Este álbum também marca a estreia do letrista Alexandre Blasifera, que assina as canções “Quando Você Chegou”, “Um Cupido Me Falou”, “No Cabaret da Sereia” e “Sobre o Mar”. As regravações são: “Nuvens” (Flávio Venturini/Ronaldo Bastos) e “Clube da Esquina Nº 2” (Milton Nascimento/Lô Borges/Márcio Borges). Na primeira, originalmente gravada no LP/CD “A Nave Vai” (14 Bis, 1985), além do arranjo que prioriza as programações de loopings e samplers, Flávio dobra as vozes e ganha um texto do autor da letra, declamado no meio da canção. A segunda ganha de Venturini a melhor e mais emocionante interpretação desta composição. O artista grava as canções “Calor/Across the River” (Bruce Hornsby/John Hornsby – versão de Mu Chebabi), “Navios” (Torcuato Mariano/Pierre Aderne) e a espiritualizada “Luz Viva” (Flávio Venturini/Juca Filho). Com Ronaldo Bastos ele gravou “Nuvens”, “O Que Tem de Ser” e a já clássica, “Noites com Sol”. Hoje Flávio contabiliza 15 CDs na carreira solo.
Para comemorar os 20 anos deste álbum antológico ele volta a São Paulo no Theatro Net, dia 14, às 21 horas, num show cheio de surpresas e participações. O repertório contempla o CD homenageado e o mais recente, “Venturini”. Imperdível.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quando o matuto é moderno

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas



Em dezembro de 1999, quando gravaram seu primeiro CD, “Bojo Elétrico”, os músicos do Matuto Moderno não imaginariam ir tão longe, a ponto de chegar a comemorar 15 anos de estrada. Não que falte qualidade, pois isso é o que sobra a cada integrante da banda. É difícil em um país como o Brasil ver um grupo que faça integração entre a música caipira das modas de viola, a catira, passando pelo pagode e se encontrando no rock sem a preocupação óbvia de seguir um padrão estético.
Eles são: Ricardo Vignini (viola caipira elétrica), Marcelo Berzotti (baixo e voz), Douglas Las Casas (bateria), Zé Helder (viola caipira e voz), Edson Fontes (voz e catira) e André Rass (percussão). Com esse trabalho o grupo consegue inserir a cultura tradicional e resgatar para dentro dela os jovens – até mesmo os que não curtem a música caipira de raiz, já que os arranjos modernos acabam atraindo esse nicho do público.
Nesses 15 anos foram gravados cinco CDs. O último, intitulado “Matuto Moderno 5” foi gravado ao vivo em um sítio na cidade mineira de Pedralva, registrado da forma mais crua possível, resgatando a maneira como eram gravados os álbuns na década de 70. O álbum tem a produção assinada pelo Matuto Moderno, por Alexandre Fontanetti e André Ferraz. Com 10 faixas, o trabalho começou a ser gravado em três de setembro de 2011, literalmente na roça. Tudo e todos os planos se encaminhavam bem até o percussionista e cofundador da banda, Mingo Jacob, vir a falecer no dia 28 de julho, um mês antes do início das gravações. “Essa era a vontade do Mingo, então, o disco será dedicado a ele”, escreve Ricardo Vignini no encarte do CD.
O álbum abre com uma parceria entre Ricardo Vignini e o irreverente André Abujamra. Em “Topada”, a pedra é o tema central, que vai da beira do caminho até aquelas encontradas nos rins. Boa sacada para esse rock caipira. Com um vocal que lembra muito os irmãos Pena Branca e Xavantinho, “Eco Macaco” (R.Vignini) nos convida a uma reflexão profunda sobre nossa evolução. A típica moda de viola se ouve na boa “Mancacá” (M. Berzotti/Z. Helder/R.Vignini).
Matuto Moderno consegue nos envolver nesse som sertanês de avenidas emolduradas pelas cordas da viola sintetizada. Em “Escuro” (Paulo Nunes/R. Vignini) o destaque fica por conta dos efeitos que nos puxam para dentro de um rock com letra que nos questiona a todo o momento sobre nossa existência. Em “Rio Sepultado” (Z. Helder), além da aula sobre os peixes que deixaram de habitar nossos rios, se ouve um pouco de tudo, desde a moda de viola, passando pela “caixa de folia”, ao rock. Isso é Matuto Moderno: um rio imenso a ser navegado. Na sequência ainda ouviremos “O Tombo” (R. Vignini), “Recorte de Abater” (E. Fontes), “Fulaninha” (Z. Helder), “Caixa de Maribondo”, uma instrumental, (R. Vignini/Carlinhos Ferreira) e “Viola Fala, Alma Reza” (M. Berzotti).
Conheça o poder dessa alquimia boa no show da próxima sexta-feira, com direito a surpresas. 

SERVIÇO: Choperia do SESC Pompeia – 7 de novembro de 2014, às 21h30. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pérolas para colecionadores

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas



Quem é colecionador sabe o quanto representa ter em sua discoteca CDs de valores históricos como os que a gravadora Kuarup acaba de colocar no mercado. O presente é triplo e traz os artistas João Bosco, Eliete Negreiros e Telma Costa, que tiveram suas obras relançadas nos formatos CD e digital. Coincidência ou não, todos os álbuns têm mais de 30 anos de seu lançamento em LP. Com isso, a Kuarup presta a todos nós, velhos amantes da MPB, e à nova geração, um serviço de resgate de obras já tão exaltadas.
Quinto LP do mestre João Bosco, “Tiro de Misericórdia” foi lançado em 1977 pela gravadora RCA (hoje Sony Music). Inédito em CD, o álbum é composto por 11 canções da parceria vitoriosa com Aldir Blanc. A música de João tem vida, tem histórias pra lá de curiosas e tem a ditadura, tão presente em suas canções. O repertório é este: “Gênesis”, “Jogador”, “Falso Brilhante” (canção que deu título ao LP de Elis Regina de 1975), “Tempos do Onça e das Feras”, “Sinal de Caim”, “Vaso Ruim Não Quebra”, com participação especial de Cristina Buarque, “Plataforma”, "Me Dá a Penúltima”, “Bijuterias”, “Tabelas” e “Tiro de Misericórdia”.
O LP “Outros Sons”, disco de estreia da cantora e compositora paulistana Eliete Negreiros, ganha versão CD/digital após 32 anos de seu lançamento de forma independente pela gravadora Voo Livre. O álbum é um dos mais significativos da chamada Vanguarda Paulista. Com produção e direção musical de Arrigo Barnabé, a audição abre com “Pipoca Moderna” (Sebastião Biano/Caetano Veloso), a faixa que dá nome ao disco,“ Outros Sons” (de Arrigo Barnabé com letra de Carlos Rennó), “Peiote” (Paulo Barnabé), “Selvagem” (Gilberto Mifune), “Brinco” (Arrigo Barnabé), “Coração de Árvore” (Robinson Borba), “Sonora Garoa” (Passoca), “As Time Goes By” (Herman Hupfeld), “Begin the Beguine” (Cole Porter, versão de Haroldo Barbosa), “Sol da Meia-noite (Midnight Sun)” (J. Mercer, S. Burke, L. Hampton, versão de Aloysio de Oliveira), “Febre de Amor” (Lauro Maia), “A Felicidade Perdeu Meu Endereço” (Claudionor Cruz/Pedro Caetano), “Espanto” (Eliete Negreiros), Itamar Assumpção entrou com “Fico Louco” e “Tudo Mudou” (Arrigo Barnabé).
Para fechar o tríplice lançamento, a Kuarup nos blinda com o relançamento do álbum “Telma Costa”, primeiro trabalho da cantora mineira de voz ímpar, capaz de alcançar os sete tons. Com a assinatura de Dori Caymmi, na produção, o álbum conta com dez canções, além da participação especial de Caetano Veloso, com quem divide os vocais em “'Certeza da Beleza” (Caetano Veloso). O álbum traz clássicos como: “Espelho das Águas” (Tom Jobim), “Coisa Feita” (Aldir Blanc/João Bosco/Paulo Emílio), “Fruta Boa” (Milton Nascimento/Fernando Brant), “Ilusão” (Dory Caymmi/Paulo Cesar Pinheiro), “Lembra” (Ivan Lins/Vitor Martins), entre outras. Prestes a completar 25 anos de sua morte, em 7 de novembro, Telma tem em sua filha, Fernanda Cunha, a continuação de seu legado.
Três estilos distintos da MPB, felizmente, de volta às prateleiras!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Um mergulho em palavras

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas



O vocabulário da nossa língua é extenso, mas ultimamente parece que estamos acomodados ao uso das palavras corriqueiras que preenchem o básico do nosso cotidiano. Ouvir Tupynamjazz – quinto álbum do baiano de Itabuna, Sérgio Di Ramos – é mergulhar em um rio cristalino de palavras poéticas, como seixos rolados nas margens de um Brasil que desconhecemos. Di Ramos assina 13 canções das 15 que compõem o CD, além da direção artística e produção, e divide os arranjos com Charles Williams.
Não é todo dia que ouvimos um trabalho com vocabulário tão rico e uma sonoridade que nos permite adentrar os caminhos desses brasis. As duas primeiras canções, “Mundo de Porancy” e “Mainá Tupinambá”, nos aproximam um pouco da essência do povo indígena. A primeira exala os rituais de comunhão com a mãe terra. O artista segue como porta-voz deste povo que sofre para manter vivas suas crenças, como visto nos versos: “Não sei mais arar/Não sei mais amar/Perdi a inocência do mundo/Não sei mais caçar/Não sei mais pescar/Piracema deixou de subir/Não sei mais sorrir/Levaram tudo de mim...” A segunda encanta pela percussão e solos de flauta pan – além do canto sublime, nos apresenta palavras do vocabulário dos nossos irmãos índios.
Com participação especial dos pernambucanos do Quinteto Violado, que assinam os arranjos e dividem os vocais com Sérgio Di Ramos, a gostosa “Rosário de Licuri” dá sequência à audição. Quem conhece as festas típicas do Nordeste sabe que licuri é um coquinho. Sérgio ficou afastado da música por 25 anos e retornou em 2008, depois de um papo pra lá de cultural com o saudoso Toinho Alves (Quinteto Violado). Um violão dialogando com uma flauta e uma letra mais que introspectiva ouviremos em “Como Deve Ser”. A primeira parceira do CD é com o mestre e violeiro Chico Lobo. Aqui ambos cantam “Código de Barras” numa verdadeira folia. A poesia que vem do pomar, um dos temas mais belos do CD, aparece em “A Manga que Rolou”. Vale degustar as doces palavras!
A terceira participação especial vem de Ouro Preto (MG) – Bárbara Leite canta e toca violão no belo samba “Esquina”. Sérgio é um poeta da terra, nela ele busca os nutrientes para nos sevir em forma de canção. Em “A Curva e o Tempo”, vamos sentir que a vida é um ponto solto no ar. O poeta não poderia esquecer o mar e, para ele, declara seu amor em “Duas Forças”. A segunda parceria é com o letrista Aleilton Fonseca. Juntos cantam a poética “Rio Cururupe”. Até achei que a próxima música fosse do grupo Taracon, por sua sonoridade, mas a composição é do próprio Sérgio, que entra no tema do momento: a falta de chuva. Aqui ele canta “As Águas de Quixeramobim” e “Trônico”. Não poderia faltar um frevo, bem ao estilo Dodô e Osmar, que se ouve em “Desaprendizando o Amor”. Com a metafórica “Margarida”, Di Ramos fala do amor. Para finalizar, o artista nos convida para uma grande brincadeira com amarelinha e bambolê, regados a um bom frevo em “Jardim Amarelo”. Sérgio Di Ramos é a palavra em forma de canção.