quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Viamão, encontro de heranças africanas

foto: Athos Souza
Edição e revisão: Marsel Botelho

 O canto que ecoa em nossos corações



O encontro da potente voz do mineiro Sérgio Pererê com a percussão do grupo argentinoNo Chilla” é eternizado neste excelente álbum “Viamão”, que traz doze faixas autorais. As primeiras foram gravadas em agosto de 2013 entre as montanhas de Viamão, povoado de Rio Manso, a 63 km da capital mineira, que serviram de “estúdio ao ar livre”. Em 2014, as gravações foram finalizadas em Buenos Aires e em Moreno, no interior da Argentina. Pererê e “No Chilla” encontraram-se pela primeira vez no ano de 2011, em Belo Horizonte (MG), quando o bar Nelson Bordello, ainda com ares de inferninho, presenciou toda a potência da união do timbre do cantor com a percussão dos argentinos.
A sonoridade “afro-mineira-porteña” resultante ecoou na ideia de fazerem o álbum em conjunto.Viamão” é o quinto álbum da carreira de Sérgio Pererê, que já apresentou ao público os discos autorais “Linha de Estrelas” (2005), “Labidumba” (2008), “Alma Grande”, “Ao Vivo” (2010) e “Serafim” (2011). O cantor e multi-instrumentista já fez parte dos grupos Tucum, Avone e Tambolelê, mas seu trabalho solo pode ser considerado o mais expressivo de sua carreira, no qual as referências afro-mineiras encontram-se de forma mais inovadora com vertentes da contemporaneidade. O artista também já dividiu o palco com Milton Nascimento, Naná Vasconcelos, Wagner Tiso e João Bosco e, atualmente, integra o grupo Sagrado Coração da Terra, ao lado de Marcus Viana. Criado em 2005, o “No Chilla” é formado por oito músicos-percussionistas argentinos, que se mantêm na pesquisa de diferentes caminhos relativos à improvisação e à composição, suas principais marcas. Há instrumentos mais tradicionais, como congas, djembé, surdo e moringa, o grupo acrescenta à sua proposta instrumentos percussivos melódicos, como mbira, balafón, marímbula, kalimbas e trombe, que são apetrechos não convencionais, de fato as próprias vozes integram-se magistralmente nesse contexto.
O projeto do CD foi beneficiado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, que terá turnê de lançamento com shows em quatro cidades e está selecionado para receber patrocínio do Natura Musical. Com tambores africanos e uma letra que nos envolve, “Viamão” propõe o encontro das heranças banto, iorubá e mandinga, que se conformaram na América Latina, em uma mistura de sonoridades. “É um álbum despretensioso, que vem do coração. ‘Viamão’ tem muita percussão e nos faz refletir como esses tambores e a mitologia que vieram de vários lugares da África, dos reinos africanos, se disseminaram e foram reinterpretados no Brasil e na Argentina”, conta Pererê. Ao ouvir cada faixa recheada de vida, o CD nos leva a uma mágica viagem, onde se dão, eloquentemente, misticismo e religiosidade: “Peixe Pescador”, “Carolina de Oiá”,  “Rosário de Maria”,  “Filhos de Odé”,  “Serpenteia”, “Paraíso”, “Noviembre”, “Pétalas”, “Santeria”, “Ogum na areia” , “Nossa Senhora do Porto”, “Macfly”. 
Show de lançamento “Viamão” − 27/08, sábado, às 20h, SÃO PAULO/SP.  Participações: Josi Lopes e Fabiana Cozza − Teatro Flávio Império (Rua Professor Álves Pedroso, 600, Cangaíba)/entrada gratuita.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O refinamento poético de Xico Bizerra


Edição e revisão: Marsel Botelho

                                                           O olhar além da janela regional


Escrever semanalmente esta coluna me dá o imenso prazer de adentrar o íntimo da música brasileira de qualidade, que se produz nos quatro cantos deste país tão rico em melodia, harmonia e poesia. Os leitores sempre sugerem, por e-mail ou por redes sociais, pautas. Dentre esses leitores, Sérgio de Andrade, vocalista da Banda de Pau e Corda, artista de carreira solo consolidada, notoriamente um dos grandes nomes da música brasileira, sugeriu a este colunista a audição do recém-lançado CD-duplo “Valsas, Canções E Tudo O Mais Que Há” do poeta e compositor pernambucano Xico Bizerra. Selo Passadisco.  Com mais de 15 anos dedicados à regionalidade musical nordestina, o poeta abriu as janelas que davam para outros ares e singelamente nos contempla com 30 faixas contendo valsas, canções, sambas, blues, choro, modinhas e um fado, mostrando que sua poesia vai além das fronteiras do regional.

Xico teve os arranjos luxuosos de nomes como George Aragão, Mauricio Cézar, Luciano Magno, entre outros. Para vestir cada tema, Bizerra convidou nomes como Alaíde Costa, Flávia Bittencourt, Elba Ramalho e o saudoso e inesquecível Dominguinhos. Mas o novo da cena musical pernambucana não foi esquecido: nomes como Almério, Ayrton Montarroyos, Carlos Ferrera, André Macambira, Luiza Fittipaldi, Surama Ramos, puderam emprestar suas vozes para a construção desta obra. Assim como fizeram os reconhecidíssimos Maciel Melo, Gonzaga Leal, Maria Dapaz, Silvério Pessoa, Sandra Belê, Irah Caldeira, Cláudia Beija, Geraldo Maia, Edilza Aires e Bia Marinho, além da participação especialíssima da fadista portuguesa Rosa Madeira.  

Esse olhar para fora da janela faz desse CD um clássico: nele Xico põe sua poesia em conexão com o sagrado e nos brinda, nos acaricia a alma, nos faz crer que nem tudo está perdido. Segundo ele próprio, o CD é transgressão estética a tudo que ele tinha feito até agora. Mergulhar e imergir nas 30 faixas é de um prazer indecifrável.  O CD 1, intitulado de “O Mais Intimo de Mim”, traz 15 temas, dos quais observa-se que “Flor Pagã” traz o piano, o baixo acústico e a voz de André Macambira como moldura para o belo poema.  “Eternamente Nós” é uma parceria com o saudoso Dominguinhos, que ganha vida na voz de Irah Caldeira e Geraldo Maia, destaque para o arranjo de cordas. “O Mais Íntimo de Mim” é uma parceria com Chico Cesar, na voz de Hadassa Rossiter.  A diva Alaide Costa empresta a voz e a interpretação à “Estrada Longa”. A fadista Rosa Madeira, em dueto com Sandra Belê, embeleza muito o “Romance do Senhor Fado Com A Moça Canção do Pajeú”. “Se Tu Quiser” tem a interpretação sublime de Gonzaga Leal.  O CD 2 também inclui 15 temas, entre eles: “Cria”, que ganha interpretação ímpar de Elba Ramalho. Ouviremos “Bisbilhotices” na voz da parceira Socorro Lira. Além de sua sanfona, ouviremos a voz solene do mestre Dominguinhos na canção “Musa”. Esse CD vale cada segundo de audição. 
Visite o site do artista www.forroboxote.com.br  ou compre pelo site www.passadisco.com.br.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Concerto para Pixinguinha




 Edição e revisão: Marsel Botelho

                                                   Um glorioso tributo para o consagrado compositor.




Completados quarenta e três anos de sua morte física, o maestro, flautista, saxofonista, compositor e arranjador Alfredo da Rocha Vianna Filho, o saudosíssimo Pixinguinha (1897-1973), continua vivo na memória musical brasileira por apresentar um conjunto de obras clássicas que atravessam o tempo sem sofrer desgaste algum. Gravado e regravado por nomes famosos de nossa MPB, o artista ganha uma releitura requintada da cantora Vânia Bastos e do compositor, arranjador e contrabaixista Marcos Paiva, que gravaram 13 temas para o já consagrado CD “Concerto Para Pixinguinha”, com o qual inauguram o selo Conexão Musical do produtor Fran Carlo.

A ideia de fazer o show com a obra do músico se deu quando o mesmo completava 40 anos de sua partida. Os dois produtores Fran Carlo e Petterson Mello colocaram o projeto no papel e convidaram o contrabaixista Marcos Paiva, que sugeriu a inclusão da cantora Vânia Bastos, cuja voz está em consonância com a obra do mestre, desenhando e revelando uma beleza única entre música e letra, perfeitamente em harmonia com a voz e a interpretação de Vânia, que as veste com os requintes e detalhes de seu lapidado e precioso canto. E assim foi. Depois de muitos ensaios com a direção musical de Paiva, o show estreia em abril de 2013, com sucesso de crítica e público.

Acompanhada do quarteto formado por Marcos Paiva (Contrabaixo), Nelton Essi (Vibrafone), Jônatas Sansão (Bateria) e César Roversi (Sax, clarinete e flauta), a cantora se entrega às canções: “Isso É Que É Viver (Pixinguinha/Hermínio Belo de Carvalho), gravada pela saudosa Elizeth Cardoso, o tema ganha um arranjo primoroso de Paiva, que dá ao vibrafone a missão de ser moldura para a voz de Bastos. Em “Rosa” (Pixinguinha/Otávio de Souza), ouviremos a valsa que, com certeza, é um dos temas mais belos compostos em 1917 e totalmente atemporal. Em “Fala Baixinho” (Pixinguinha/Hermínio Belo de Carvalho), destaque para o floreio da flauta. A Clássica “Carinhoso” ( Pixinguinha/João de Barros) dispensa apresentação, vale mesmo é ouvir. Em “Lamentos” (Pixinguinha/Vinícius de Moraes), destaque para o baixo de Marcos Paiva, que é o único instrumento que acompanha a voz nessa canção.  A voz e os instrumentos em prol da magnífica “Mundo Melhor” (Pixinguinha/Vinícius de Moraes): Aumente o som ao ouvir. Um autêntico samba carioca se ouve em “Samba de Fato” (Pixinguinha/Cicero de Almeida), ainda ouviremos, na voz da cantora, os chorinhos “Gavião Calçudo” (Pixinguinha) e “Urubu Malandro” (João de Barros/Louro).

O quarteto, capitaneado por Paiva, interpreta magistralmente os temas: “Seu Lourenço No Vinho” (Pixinguinha/Benedito Lacerda), “Cochichando” (Pixinguinha/João de Barros/Alberto Ribeiro), “Displicente” (Pixinguinha), “Recordações” (Pixinguinha). O CD é um bálsamo aos ouvidos delicados e atentos, assim como ao bom gosto.

Vânia Bastos e Marcos Paiva - Lançamento do CD “Concerto para Pixinguinha”.
Teatro J. Safra Rua Josef Kryss, 318 – Barra Funda – São Paulo – SP.
Telefone: (11) 3611-3042 -Capacidade da casa: 627 lugares.
Sábado, 13 de agosto, às 21h30.
Duração: 75 minutos.
Classificação: Livre.























quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A música orgânica de Sérgio Di Ramos

    Edição e revisão: Marsel Botelho

                                                            A poesia,música e pintura saem dessas mãos.




Enquanto a grande mídia insiste em nos empurrar uma música plastificada, intragável, insossa, amarga e sem conteúdo, nos rincões desse Brasil sempre tem alguém fazendo uma música doce, com temperos finos, que faz bem para o corpo e para a alma, como faz a música deste baiano de Itabuna, Sérgio Di Ramos, que está lançando seu sexto álbum, intitulado “Com as mãos”, produzido por ele próprio, em parceria com Charles Williams. O CD conta com 11 faixas, sendo 10 assinadas pelo artista e uma em parceria com o poeta e escritor baiano Aleilton Fonseca, chamada “Ladeira do Outeiro”. O disco tem o selo de qualidade da gravadora e editora Kuarup.
Sérgio é um artesão no sentido profundo da palavra. Ele produz suas canções, seus livros, violões, seus quadros, literalmente com “As mãos”, titulo do sexto filho musical. Orgânico álbum que permite mostrar que o artista exala do cotidiano a poesia viva, que caminha junto com a melodia extraída de dentro, onde mora a canção no íntimo do seu ser.  

O artista nos contempla com um vocabulário rico, permitindo adentrar a alma da palavra e tirar o sumo de seu significado. Um piano dá as boas-vindas na primeira canção “Última Selfe”. O tema noticia bem a moda das “Selfes”, que nos retratam momentos, e nunca a alma deles. A música “Com as mãos”, que dá título ao CD, é um gostoso samba-canção, com o qual o poeta define as funções das mãos. Numa das canções mais profundas do álbum, o artista, com uma poesia triste, denuncia e, ao mesmo tempo, alerta sobre a morte diária do velho rio “São Francisco”, que durante décadas foi o grande braço eleitoreiro do Nordeste. Triste realidade para as comunidades ribeirinhas que vivem do rio.

Como escrevi, a música que o poeta baiano veste é orgânica: Na quarta faixa “Erosão”, o tempo e o que tem dentro dele são tratados de forma única, ímpar. O Sérgio também é um grande pintor: suas telas são belos poemas pintados, enquadrados de emoção. Em “Cavalete de Cristal”, o artista pinta seu autorretrato. Nas cidades interioranas eram frequentes o uso dos sinos de suas igrejas e catedrais para anunciar as horas, suas festas, seus casamentos e funerais, aqui o artista canta seu “Sino Senhorio”. Fazia tempo que não ouvia a expressão “Tengo, Tengo”, imortalizada por Luiz Gonzaga na música “Morte do Vaqueiro”. Sérgio canta “Tengo, Tengo é o Trem”. Descreve as idas e vindas no metrô de Salvador. Usando metáforas, o artista canta a bela “Espantalho”. Um autêntico arrasta-pé ouviremos em “Aboio de Março”: flauta e acordeom, voz e uma vontade arretada de dançar numa sala de reboco. Uma cantiga se ouve em “Casamento da Raposa”, nela o artista tem a companhia finíssima do Cello de Shmidt.

Última canção do disco, “Ladeira do Outeiro”, o artista a veste com sua melodia, o poema é recheado de lembranças de outrora, do tempo de criança do poeta Aleilton Fonseca.

Sérgio Di Ramos é esse caixeiro-viajante, menestrel das canções, poeta de imagens e luthier de emoções, que a cada trabalho se entrega de corpo e alma, e quem ganha somos nós.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Encontro Eternizado


                                                                               Edição e revisão: Marsel Botelho


                                                              Quarenta anos de amizade, música e poesia




Chegou a hora de o público paulista ter a oportunidade de assistir ao lançamento do CD duplo e do DVD “Encontro Marcado” de Flávio Venturini, Sá & Guarabyra e 14 Bis (Cláudio Venturini, Sérgio Magão, Vermelho, Hely Rodrigues). Coprodução de Cadoro Eventos, Nó de Rosa e Canal Brasil. Sem dúvida esse é um dos encontros mais importantes da música brasileira, pois reuni sete músicos que comungam poesia, música e amizade. Tudo começou em 30 de maio de 2008, no Chevrolet Hall, Belo Horizonte (MG). Na ocasião, o saudoso Zé Rodrix (1947-2009) integrava o emblemático trio “Sá, Rodrix & Guarabyra”. Três anos depois aconteceu, no mesmo local, o segundo encontro, com formato similar, porém, algo faltava naqueles shows: três grandes atrações no palco, com pouca troca entre eles. O terceiro “Encontro Marcado” deu o ponta pé inicial, em 7 de março de 2015, na capital mineira, levando o público ao delírio. O show chegou à capital paulista em 15 de maio do mesmo ano.

Agora eternizado em áudio e vídeo, o “Encontro” foi gravado em 24 de abril de 2016 no Teatro do Sesi em Belo Horizonte
(MG).  Não foi fácil reunir essa galera para rearranjar e produzir esse novo show, pois todos têm agendas lotadas. Lembro-me de que no início havia certa dúvida de quem seria a banda base desse encontro: Os músicos de Sá & Guarabyra ou a banda de Flávio, mas o14 Bis é uma banda e tudo se encaixou normalmente. O repertório do CD e do DVD traz da dupla Sá & Guarabyra as canções “Primeira Canção da Estrada”, “O Pó da Estrada”, “Me Faça Um Favor”, “Jesus Numa Moto”, “Mestre Jonas”, “Dona”, “Sobradinho”, “Pássaro”. Da carreira solo, Flávio Venturini apresenta: “Nascente”, “Noites Com Sol”, Céu de Santo Amaro”. Constam do repertório do 14 Bis as canções “Sonhado o Futuro”, “Uma Velha Canção Rock’n Roll”, “Mesmo de Brincadeira”, “Nave de Prata”, “Nova Manhã”, “Todo Azul do Mar”, “Natural”, “Mais Uma Vez”, “Planeta Sonho”, “Linda Juventude”. Da parceria de Sá com Flávio, ouviremos a canção “Criatura da Noite”, gravada pela banda O Terço. De Sá e Magrão, “Caçador de Mim”, gravada pelo 14 Bis. De Guarabyra e Flávio, “Espanhola”, gravada pelo 14 Bis e por Sá & Guarabyra. Ainda temos o tema que sintetiza todo esse encontro: “Canção da América” (Milton Nascimento/Fernando Brant):  “Amigo é coisa para se guardar/Debaixo de sete chaves/ Dentro do coração/Assim falava a canção que na América ouvi...”

 É de suma importância informar aos meus leitores que o grande elo desse encontro é a dupla Sá & Guarabyra. De certa forma, eles abriram as portas, em 1974, tanto para Flávio Venturini, quanto para Sérgio Magrão. Nessa época, ambos foram músicos da dupla e, consequentemente, viraram parceiros em grandes temas. Outro fato relevante são os fãs da banda 14 Bis da década de 1990, que terão a oportunidade de ver um show com o fundador da banda, Flávio Venturini.

O Show “Encontro Marcado” acontece dia 30 (sábado), 22h – City Bank Hall – Avenida das Nações Unidas, 17.955 – Santo Amaro, SP.