quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pérolas para colecionadores

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas



Quem é colecionador sabe o quanto representa ter em sua discoteca CDs de valores históricos como os que a gravadora Kuarup acaba de colocar no mercado. O presente é triplo e traz os artistas João Bosco, Eliete Negreiros e Telma Costa, que tiveram suas obras relançadas nos formatos CD e digital. Coincidência ou não, todos os álbuns têm mais de 30 anos de seu lançamento em LP. Com isso, a Kuarup presta a todos nós, velhos amantes da MPB, e à nova geração, um serviço de resgate de obras já tão exaltadas.
Quinto LP do mestre João Bosco, “Tiro de Misericórdia” foi lançado em 1977 pela gravadora RCA (hoje Sony Music). Inédito em CD, o álbum é composto por 11 canções da parceria vitoriosa com Aldir Blanc. A música de João tem vida, tem histórias pra lá de curiosas e tem a ditadura, tão presente em suas canções. O repertório é este: “Gênesis”, “Jogador”, “Falso Brilhante” (canção que deu título ao LP de Elis Regina de 1975), “Tempos do Onça e das Feras”, “Sinal de Caim”, “Vaso Ruim Não Quebra”, com participação especial de Cristina Buarque, “Plataforma”, "Me Dá a Penúltima”, “Bijuterias”, “Tabelas” e “Tiro de Misericórdia”.
O LP “Outros Sons”, disco de estreia da cantora e compositora paulistana Eliete Negreiros, ganha versão CD/digital após 32 anos de seu lançamento de forma independente pela gravadora Voo Livre. O álbum é um dos mais significativos da chamada Vanguarda Paulista. Com produção e direção musical de Arrigo Barnabé, a audição abre com “Pipoca Moderna” (Sebastião Biano/Caetano Veloso), a faixa que dá nome ao disco,“ Outros Sons” (de Arrigo Barnabé com letra de Carlos Rennó), “Peiote” (Paulo Barnabé), “Selvagem” (Gilberto Mifune), “Brinco” (Arrigo Barnabé), “Coração de Árvore” (Robinson Borba), “Sonora Garoa” (Passoca), “As Time Goes By” (Herman Hupfeld), “Begin the Beguine” (Cole Porter, versão de Haroldo Barbosa), “Sol da Meia-noite (Midnight Sun)” (J. Mercer, S. Burke, L. Hampton, versão de Aloysio de Oliveira), “Febre de Amor” (Lauro Maia), “A Felicidade Perdeu Meu Endereço” (Claudionor Cruz/Pedro Caetano), “Espanto” (Eliete Negreiros), Itamar Assumpção entrou com “Fico Louco” e “Tudo Mudou” (Arrigo Barnabé).
Para fechar o tríplice lançamento, a Kuarup nos blinda com o relançamento do álbum “Telma Costa”, primeiro trabalho da cantora mineira de voz ímpar, capaz de alcançar os sete tons. Com a assinatura de Dori Caymmi, na produção, o álbum conta com dez canções, além da participação especial de Caetano Veloso, com quem divide os vocais em “'Certeza da Beleza” (Caetano Veloso). O álbum traz clássicos como: “Espelho das Águas” (Tom Jobim), “Coisa Feita” (Aldir Blanc/João Bosco/Paulo Emílio), “Fruta Boa” (Milton Nascimento/Fernando Brant), “Ilusão” (Dory Caymmi/Paulo Cesar Pinheiro), “Lembra” (Ivan Lins/Vitor Martins), entre outras. Prestes a completar 25 anos de sua morte, em 7 de novembro, Telma tem em sua filha, Fernanda Cunha, a continuação de seu legado.
Três estilos distintos da MPB, felizmente, de volta às prateleiras!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Um mergulho em palavras

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas



O vocabulário da nossa língua é extenso, mas ultimamente parece que estamos acomodados ao uso das palavras corriqueiras que preenchem o básico do nosso cotidiano. Ouvir Tupynamjazz – quinto álbum do baiano de Itabuna, Sérgio Di Ramos – é mergulhar em um rio cristalino de palavras poéticas, como seixos rolados nas margens de um Brasil que desconhecemos. Di Ramos assina 13 canções das 15 que compõem o CD, além da direção artística e produção, e divide os arranjos com Charles Williams.
Não é todo dia que ouvimos um trabalho com vocabulário tão rico e uma sonoridade que nos permite adentrar os caminhos desses brasis. As duas primeiras canções, “Mundo de Porancy” e “Mainá Tupinambá”, nos aproximam um pouco da essência do povo indígena. A primeira exala os rituais de comunhão com a mãe terra. O artista segue como porta-voz deste povo que sofre para manter vivas suas crenças, como visto nos versos: “Não sei mais arar/Não sei mais amar/Perdi a inocência do mundo/Não sei mais caçar/Não sei mais pescar/Piracema deixou de subir/Não sei mais sorrir/Levaram tudo de mim...” A segunda encanta pela percussão e solos de flauta pan – além do canto sublime, nos apresenta palavras do vocabulário dos nossos irmãos índios.
Com participação especial dos pernambucanos do Quinteto Violado, que assinam os arranjos e dividem os vocais com Sérgio Di Ramos, a gostosa “Rosário de Licuri” dá sequência à audição. Quem conhece as festas típicas do Nordeste sabe que licuri é um coquinho. Sérgio ficou afastado da música por 25 anos e retornou em 2008, depois de um papo pra lá de cultural com o saudoso Toinho Alves (Quinteto Violado). Um violão dialogando com uma flauta e uma letra mais que introspectiva ouviremos em “Como Deve Ser”. A primeira parceira do CD é com o mestre e violeiro Chico Lobo. Aqui ambos cantam “Código de Barras” numa verdadeira folia. A poesia que vem do pomar, um dos temas mais belos do CD, aparece em “A Manga que Rolou”. Vale degustar as doces palavras!
A terceira participação especial vem de Ouro Preto (MG) – Bárbara Leite canta e toca violão no belo samba “Esquina”. Sérgio é um poeta da terra, nela ele busca os nutrientes para nos sevir em forma de canção. Em “A Curva e o Tempo”, vamos sentir que a vida é um ponto solto no ar. O poeta não poderia esquecer o mar e, para ele, declara seu amor em “Duas Forças”. A segunda parceria é com o letrista Aleilton Fonseca. Juntos cantam a poética “Rio Cururupe”. Até achei que a próxima música fosse do grupo Taracon, por sua sonoridade, mas a composição é do próprio Sérgio, que entra no tema do momento: a falta de chuva. Aqui ele canta “As Águas de Quixeramobim” e “Trônico”. Não poderia faltar um frevo, bem ao estilo Dodô e Osmar, que se ouve em “Desaprendizando o Amor”. Com a metafórica “Margarida”, Di Ramos fala do amor. Para finalizar, o artista nos convida para uma grande brincadeira com amarelinha e bambolê, regados a um bom frevo em “Jardim Amarelo”. Sérgio Di Ramos é a palavra em forma de canção.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Ele ouviu primeiro

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas



Quantos artistas hoje consagrados – outros nem tanto – passaram nesses 31 anos pelo palco da Fampop (Feira Avareense da Música Popular), festival idealizado pelo compositor, cantor e produtor Juca Novaes. São três décadas de inúmeras músicas inscritas, às quais Juca foi o primeiro a ouvir para prévia seleção. Novaes resolveu mostrar a sua interpretação de onze temas escolhidos para o CD “Canções de Primeira – Vol. 1”, lançado pela Dabliú Discos, com arranjos e produção de Sérgio Bello. Este festival, ao longo de sua história, projetou nomes como: Lenine, Chico César, Zeca Baleiro, Jorge Vercillo, Moacyr Luz, Virgínia Rosa, Rita Ribeiro, além dos novos nomes Dani Black, Cinco a Seco e Marcelo Segreto, entre outros. Se você é compositor, vale apena inscrever suas músicas no festival, com o aval de nomes como o do historiador da MPB e jornalista Zuza Homem de Mello, que o define assim: "Avaré viu e ouviu primeiro".
Neste CD ouviremos o intérprete que dá vida a canções. Dono de uma voz melódica, o artista sabe como entoar seu canto, seja qual for o estilo musical. A primeira faixa, “Quilombos”, é do pernambucano Lenine, em que Juca encara o suingue e dá a “sua cara” à obra que nunca foi gravada pelo autor. Dos compositores Rafael Altério e Kleber Albuquerque ele canta, em dueto com Dani Black, a bela canção “Logradouro”. Um dos momentos mais bonitos do álbum é a participação especialíssima do grupo vocal MPB4 na canção “Era Você” (Carlin de Almeida/Mauro Mendes). Detalhe marcante da gravação é que o “Magro”, um dos maiores arranjadores vocais deste país, fez os arranjos para a canção, sendo este seu último trabalho, vindo a falecer dias depois, em 8 de agosto de 2012. A ele, o disco é dedicado.
Juca não tem problema algum em passear entre tantos estilos, pela grande familiaridade que tem com todas as vertentes da música brasileira. Nasceu para o oficio, é um predestinado, como mostra no sofisticado “Samba de Uma Noite Só” (Fernando Cavallieri). O cantor e compositor Jorge Vercillo e seu parceiro Jota Maranhão são lembrados em “Encontro das Águas”, canção que empresta o nome ao primeiro CD de Vercillo, de 1994. Novaes canta “vercillamente” e tem a participação especial de Pedro Altério.
Juca Novaes resgata a canção “Dindinha” (Zeca Baleiro) e convida o paraibano Chico César, que grava a voz em João Pessoa, num dueto virtual. A próxima canção é a mais nova deste primeiro volume: “Pra Você Dar o Nome”, de Tó Brandileone, do grupo paulista Cinco a Seco. Com a voz gravada no estúdio Orange, em Amsterdam, a cantora Ceumar faz dueto com Juca na gostosa “Água e Azeite” (Sérgio Misan/João Boamorte). Para mim, a música mais bonita do CD, e também a mais antiga, é “Belorizontem” (Alyssinho Lima/Danilo Horta) composta no início dos anos 1980. Do mestre Moacyr Luiz, o artista grava o maracatu/samba “Que o Tocador é Bom”. Para finalizar, um samba que não participou do festival, “Coração Afobado” (Celso Viáfora). Que venham as próximas Canções de Primeira!

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Taiguara, vivo como nunca

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas



Amanhã Taiguara Chalar da Silva completaria 69 anos, se não tivesse nos deixado aos 50 anos, vitimado por um câncer. Mas temos muito a comemorar, pois sua memória nunca foi esquecida e, como presente, receberemos da gravadora e editora Kuarup dois produtos com lançamento simultâneo: o livro “Os Outubros de Taiguara”, escrito pela jornalista Janes Rocha, e o CD póstumo “Ele Vive”, produzido pelo lendário músico Pedro Baldanza, o Pedrão. Os velhos fãs de Taiguara vão viajar no tempo, mas, para mim, a grande importância é que tais obras possam alcançar as novas gerações e despertar nelas o interesse em conhecer esse artista nato, um dos mais perseguidos durante o regime militar. Janes mergulhou nos guardados sombrios do “Arquivo Nacional” e no extinto “Serviço Nacional de Inteligência” (SNI) das Forças Armadas para relatar como eram as manobras a vetar e prejudicar o compositor que teve mais de 80 canções censuradas, além do disco “Imyra, Tayra, Ipy – Taiguara”, recolhido em 1976, pouco depois de chegar às lojas.
Empenhada em preservar a memória do artista, Ana Lasevicius, sua viúva, encontrou na Kuarup a parceria certa para a curadoria dessa obra extensa e rica. Dezenas de fitas com centenas de horas de gravação foram entregues pela gravadora a profissionais altamente competentes com a função de extrair as 11 canções do álbum, todas inéditas, gravadas só com voz e piano. A recuperação física e digitalização do áudio a partir de fitas cassete originais ficaram a cargo de Ricardo Carvalheira e Felipe Sander. As bases e arranjos foram criadas por Ricardo Cristaldi e as mixagens e masterização ficaram por conta de José Luis Costa, ou Gato.
Ouviremos a qualidade poética e política de um artista que ganha nova voz 18 anos depois do grande público dar por encerrada sua obra. A canção “Ele Vive”, que dá título ao CD, é uma homenagem ao líder comunista Luís Carlos Prestes (1898-1990). Em “Guerra é pra Defender” sua veia política se mostra nitidamente. A única canção deste resgate com parceria é “Te Quero”, composta para sua amiga, a cantora Vanja Orico. Com letra do poeta Sérgio Napp, nela temos uma apaixonada declaração de amor. Para mim a canção “Moça da Noite” bateu forte. Me fez enxergar o submundo da exploração sexual – tema que já era denunciado no passado pelo artista –, também presente em “Conflito (Sexo Escravo)” e “Alba Esperança”. Ainda no álbum: “Manhã na Candelária”, “Sou Negro” (um verdadeiro manifesto em prol da raça), “Tomou Rebeldia” – título dado pelo pessoal da Kuarup, pois não estava identificada –, “Catador de Milho” e “Samora Potiguara”, dedicada ao filho do segundo casamento. A gravadora ainda dá de bônus: “Outubro” (Milton Nascimento/Fernando Brant), “Modinha” (Sérgio Bittencourt), “Helena, Helena, Helena” (Alberto Land) e “Hoje” (Taiguara), gravadas ao vivo no Teatro João Caetano. As utopias de Taiguara, seus sonhos e ideais, permanecem vivos na sua obra, diz Alcides Ferreira, jornalista proprietário da Kuarup.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Das canções mineiras ao rock progressivo

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Eles são cariocas, mas resolveram registrar em CD suas infinitas influências dos artistas mineiros que cultuam, como Beto Guedes, Lô Borges, Milton Nascimento, Flávio Venturini e bandas como Sagrado Coração da Terra, 14 Bis, O Terço, além das progressivas Pink Floyd, Marillion, Yes, Rush, Jethro Tull e Genesis, que eles cresceram ouvindo. Essa é a banda Únitri, formada por André Zichtl (guitarra, violão, programação, backing vocals), Danilo Ferreira (vocal, violão), Rômulo Lima (baixo, teclado, bass pedal, backing vocals) e Michel Melo (bateria, percussão).
O CD “Minas, Cantos e Quintais” apresenta 12 canções e tem a produção assinada pelo mago e lenda do rock progressivo nacional, Sérgio Hinds. A primeira faixa, “Canção” (André Zichtl/Danilo Ferreira) é a comprovação de que os meninos beberam forte nas fontes citadas. “Minas” é cantada de forma sublime e nos remete a discos clássicos como Espelho das Águas, do 14 Bis. Danilo Ferreira entoa as notas como se tivesse nascido lá – seu canto tem a melodia e harmonia mineiras e, em alguns momentos, chega a lembrar o timbre de Cláudio Venturini. Ele foi o último a entrar na banda e é dele a “mineirice” embutida nas composições. “Minas, Cantos e Quintais” (Danilo Ferreira) é um passeio sonoro pela Estrada Real, pelos pomares, pela religiosidade tão presente, pelas esquinas de um “Clube”, pelo voo imaginário do 14 Bis. Vale fazer essa viagem. Regravar um clássico como “Criaturas da Noite” (Flávio Venturini/Luiz Carlos Sá) é de uma responsabilidade ímpar. Com participação de Sérgio Hinds dividindo os vocais, os garotos do Únitri ainda contam com Raphael Montechiari ao piano. A grande surpresa fica para o final da canção, quando eles entoam os vocais, emendando “Pequenas Coisas” (Cezar de Mercês/Sérgio Magrão), música do álbum Além Paraíso, do 14 Bis, de1982.
A mistura entre poesia e melodia faz nossos corações explodirem de amor, numa sensação indefinida, ao ouvir “Diamante” (André Zichtl, Rômulo Lima, Danilo Ferreira). Destaque para o solo de “sint” de Raphael Montechiari. Com participação especial de Marco Aurêh na flauta, “À Mostra” (André Zichtl/Rômulo Lima) é mais um tema que imprime a poética mineira em sua melodia. “Agora” (André Zichtl/Rômulo Lima/Marta Sódre), com sua singeleza “à la” Anos 70, é emoção na certa.
Aperte os cintos que a coisa vai ficar séria. A partir desse momento, a viagem é por solos de guitarras, moogs, flautas e vocais elaborados. Aqui o som é passageiro do infinito, a música flutua por megatons no espaço. Ouviremos os progressivos que nos remetem ao encontro inusitado do Pink Floyd com o Jethro Tull nas trísceles “Trans Somnia” e “Zênite” (Rômulo Lima), e “Luna” (André Zichtl). “Orion” (Rômulo Lima), “Luz” (Fábio Macedo/Eugênio Zicti) e “Arcárdia” (André Zichtl/Rômulo Lima/Eugênio Zichtl/Danilo Ferreira) fecham a audição. Únitri é isso: a comunhão da poesia mineira e sua rica harmonia com a viagem sonora dos solos progressivos.