quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Encontro de Almas


Edição e revisão: Marsel Botelho


                                                                              Ela nasceu para cantar, ouvir seu canto é um presente dos deuses.




Na vida e na arte estamos sempre propícios a encontros que se eternizam. Com a cantora paulistana Daniela Alcarpe não foi diferente. Dona de uma voz que é um verdadeiro bálsamo aos ouvidos, a cantora acaba de lançar seu terceiro álbum, “Eu e Ela”. “Dani” mergulha na obra do compositor Joel Damasceno, no que chamo de encontro de almas (música, poesia e voz). Com Arranjos e direção musical de Robertinho de Carvalho, o CD, que está sendo lançado em todas as plataformas digitais (e em breve no formato físico), apresenta 12 temas da farta safra do compositor “brotense”.

Conheci o canto da Daniela Alcarpe em meados de 2015, de logo, sua riqueza sonora arrebatou-me o coração. Sua voz, de timbre refinado, acaricia-nos, seja qual for o estilo de que se tecem os sons que nos deleitam. Esse “Encontro de Almas” teve seu início em 2013, quando a cantora defendeu o chorinho “Dinda”, que foi vencedor do festival “Botucanto”.

Daniela Alcarpe é uma artista no mais inteiro teor semântico, ela não sobe ao palco simplesmente para cantar: nele se completa e dá sentido cênico-musical à arte da interpretação, com a qual funde sua intuição de atriz à voz de cantora em cada momento de seu repertório, inegavelmente bem elaborado. Gravou seu primeiro CD (“Que é que cê qué?”, 2009) e o segundo (“O Tempo salta”, 2013) ambos com direção musical de João Marcondes. Desde os anos 60, o compositor Joel Damasceno segue o curso de sua poética labuta de compor: aos 18 anos já se atirava ao mundo pelo olhar mágico de suas canções. Não poderia ser diferente a abertura do CD, teria de ser com o “chorinho”, que é a grande liga desse encontro, “Dinda”. O compositor divide com a cantora os versos, em um dueto para lá de especial. A segunda canção, “Computador”, é um “lamento”, em que Joel, sutilmente, vai nos surpreendendo com aliterações vérsicas, afinal, a modernidade é refém da máquina. A cantora nos brinda com uma interpretação brilhante, que segue o ritmo dessas aliterações, no compasso do belo arranjo. Joel separou de sua obra uma canção que nos permite viajar no reino da imaginação e resgatar o menino que existe dentro de nós, assim é “Caixinha de Surpresas”.

O cello, o piano, a voz de Dani e o som da flauta, em “Antes que a canção acabe”, à poesia pedem passagem e convidam-nos ao passeio por saudades infinitas. Em “Somos Um”, a cantora tem a participação especial de seu marido, Daniel Cukier, com quem divide os vocais. Um bom samba se ouve em “Tô Feliz”. Literalmente os amigos batem um papo musical em “Eu e Ela”, canção que dá título a esse encontro. Uma marchinha, “Cicatrizes”, também veio contemplar o CD, que é, por excelência, dedicado ao bom gosto. Daniela Alcarpe, “a dona da voz”, sabe dominar os registros vocais em cada canção e canta, como quem doa, em cada respiração, a nós, sortudos ouvintes, sua total sensibilidade.

Para finalizar a audição, ouviremos “Cidade Minha”, “Até o Amanhecer” e “Sambista do Metrô”. Resta-nos esperar o lançamento nos palcos do país.  Vida longa a quem faz música de qualidade.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Bianca Luar


Edição e revisão: Marsel Botelho


                                                                             Álbum de estreia de uma cantora veterana das gerais.


Nascida em Montes Claros, norte de Minas Gerais, terra do ícone Beto Guedes e do saudoso Lulu Guedes, “Bianca Luar” começou muito cedo seu envolvimento com música e com bandas que tocavam “cover”. Contemplada por uma lei de incentivo à cultura do governo de Minas, Bianca Luar apresenta seu primogênito, “Mira”. Composto por 10 temas, o álbum teve produção de Tattá Spalla e coprodução  de Ian Guedes, além de contar com as participações especiais de Beto Guedes, Toninho Horta e Sérgio Pererê. Bianca bebeu forte na fonte musical dos Guedes, mesmo porque foi casada com Ian e compartilhou da efervescência musical da família. Com Ian, formou uma dupla que tocava canções do emblemático Clube da Esquina nos bares da vida, até decidir que iria alçar voo com um trabalho todo seu.
Em um papo gostoso por uma rede social, a artista me disse: “Mira foi um sonho que se realizou. A costura afetivo-musical de minha vida e de meu trilhar artístico. Os ídolos, a terra natal, o companheiro, os ritmos do Brasil, a harmonia de Minas e a poesia, que desassossega a gente. Buscamos a suavidade robusta de uma sonoridade leve e fiel ao que sentimos. As histórias cantadas falam direto ao meu coração e à minha vontade frondosa e falam também ao de muitas pessoas. Gratidão!”
Luar é dona de um timbre doce e melódico que faz com que a canção interpretada por ela fique cada vez mais audível aos ouvidos sensíveis. A canção que abre a audição do CD, “Tijolo de Seda”, composta pelos mineiros Rai Medrado e Murilo Antunes, é uma típica canção mineira que, ao se ouvir, de logo se sabe que veio do lado das Gerais. O pernambucano Oto também participa do repertório com “Lavanda”, música dedicada aos orixás: Bianca conta com o vocalize afro de Sérgio Pererê, o que transforma a canção em um hino.
Como uma boa mineira, a cantora gravou os sambas “É preciso Perdoar” (Alcyvando Luz/Carlos Coquejo) e “Odete” (Sérgio Sampaio). Há indícios de que o samba nasceu em Minas Gerais, então a intérprete está fazendo sua parte (e muito bem). Um samba canção refinado, com a guitarra única de Toninho Horta, se ouve em “Beijo Verdadeiro” (Rai Medrado/Caio Machado). Sabe... aquela canção com a qual você se identifica, principalmente se seu relacionamento anda meio assim... Sim, ela também existe entre as canções desse primeiro CD: “Partas Não” (Lokua Kanza/Carlos Rennó).
Seu lado fã fica evidente ao escolher e dar uma nova roupagem à canção “Como o Machado” (Lô e Márcio Borges), a música faz parte do antológico “disco do tênis”, Lô Borges, 1972. Pensando no mercado internacional, a cantora arrisca seu inglês na canção “Acordar com Você” (Rai Medrado). A canção que dá título ao CD, “Mira” (Pablo Castro/ Makely Ka), tem um suingado gostoso de se ouvir.
A música que finaliza essa bela audição, “Pedaço Sertão” (Tatta Spalla/Luiz Carlos Sá), cela a estreia da jovem cantora nesse meio tão árduo, ainda mais para quem se propõe a fazer uma música de qualidade. A participação de Beto Guedes (segundo pai, como ela o chama carinhosamente) foi muito enriquecedora. A canção exala paz, amor e nos enche de esperança para seguir.




quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Trios


Edição e revisão: Marsel Botelho


                                                                             Nas mãos de Ricardo Valverde o vibrafone ganha voz.


Dois anos se passaram desde o primeiro CD, “Teclas no choro” (CPC/UMES, 2014), no qual o vibrafonista, arranjador, percursionista erudito e popular, Ricardo Valverde, nos presenteou com uma releitura sofisticada de “choros” clássicos. Hoje, Valverde nos apresenta seu novo álbum, “Trios”, composto de 12 temas produzidos pelo próprio artista em parceria com André Salmeron (Baticum Discos). Valverde provou que o vibrafone pode e deve ter seu lugar ao sol.
No segundo disco, Valverde nos proporciona uma audição requintada, de bom gosto, em nove temas autorais, uma regravação e dois temas assinados por seu pai, Júlio Valverde.
Segundo sua parceira e irmã, Juliana Valverde, “Trios” tem essa definição: “É do lugar de habitar o momento, desconhecer-se ao sol, duvidar ao alvorecer, reencontrar-se sob o céu de tantas luas, na mesma lua que o artista concebeu TRIOS, disco que, não por acaso, apresenta três diferentes formações de músicos para expressar as três partes bem marcadas em que foi organizado: manhã, tarde e noite.”

Você terá o prazer de ouvir as faixas instrumentais (divididas nos três períodos do dia). Começando por “Manhã”, teremos os músicos Alex Maia (violão) e Matteo Papaiz (baixo acústico). O tema que abre essa audição é de uma poesia sonora atemporal e nos remete a um passeio matinal por bosques e alamedas de sabores e perfumes, que vão se tornando visíveis aos olhos e ouvidos atentos, “Vinheta” (Ricardo e Juliana Valverde). Na sequência, ouviremos “Pecinha” (R.V): as mudanças de andamento nos proporcionam momentos de baião, chorinho e canção. Datado de 1926, o tema “Revendo o passado” é a única regravação que o vibrafonista selecionou para o álbum: uma valsa, lançada pela Orquestra da Casa Edison, que ganha do artista uma releitura magistral. Para finalizar a audição do período da manhã, ouviremos o samba sincopado “Moçambique”, em parceira com o compositor e sambista paulistano Douglas Germano.

O convite agora é para ouvirmos o período da “Tarde”, no qual músicos extraordinários como Ricardo Valverde, Álvaro Couto e Silva (acordeon) e a lenda viva do violão sete cordas, o mestre Luizinho Sete Cordas, tocam juntos. A audição começa com o “choro”, assinado pelo próprio artista, “Mimizando”. Com Luizinho Sete Cordas, Valverde compôs o forró “Feirinha no Apinajés”, vale ouvir o diálogo entre acordeon, violão e o vibrafone, que fala de Ricardo Valverde em tessituras multicoloridas. Com a amada e companheira de palco e lar, Bia Goes, o artista compôs a valsa “Flor de Sal”, simplesmente bela. Mais uma canção que assina com a irmã, a poetisa Juliana Valverde, “Do Outro Lado do Quintal”. Um choro de responsabilidade.

Fechando essa audição instrumental, que tem à voz principal o vibrafone de Ricardo Valverde, chegamos ao período da “Noite” e com ele os músicos Matteo Papaiz (baixo elétrico) e Yuri Prado (guitarra). Teremos quatro temas no referido período, dois assinados por Ricardo Valverde: “Candinha” e “Choro para Bia”; o segundo, dedicado à esposa Bia Goes. Outros dois temas são assinados por seu pai, Júlio Valverde, “Verão 58” e “Passos”.

Ricardo, seu segundo álbum é tão bom quanto o primeiro.




quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A Kuarup nos presenteia


Edição e revisão: Marsel Botelho


                                                   Ele canta de dentro para fora , como deve ser a voz que emana de um verdadeiro cantador. Xangai é o único que interpreta Elomar como se fosse o próprio a cantar.



Estamos chegando próximo do Natal e as listas de presentes já estão sendo confeccionadas por todos nós. Pensando nisso, a gravadora, selo e editora Kuarup se antecipa e nos presenteia com um relançamento triplo da obra de Eugênio Avelino, o “Xangai”, com os títulos “Xangai Canta Cantigas Incelenças Puluxias e Tiranas de Elomar”,Mutirão da Vida”,Cantoria de Festa”.
Para vocês, leitores, entenderem melhor o que foi e o que é a gravadora Kuarup, irei resumir: A gravadora Kuarup teve sua fundação no Rio de Janeiro, mais precisamente em 1977, a cargo do produtor Mario de Aratanha e do saudoso fagotista Airton Barbosa do Quinteto Villa-Lobos. Em meados dos anos 90 e 2000, a gravadora passou por momentos difíceis, mas foi recuperada, no início de 2010, por um grupo de acionistas de São Paulo, que adquiriu todos os direitos de marca e propriedade sobre o extenso e rico catálogo; sem esquecer a distribuição implementada pela Sony Music, que deu novo fôlego à Kuarup. Hoje, é uma das principais gravadoras independentes do país. Especializada em música brasileira, possui mais de 200 títulos em seu acervo, além de ter a maior coleção de obras de Villa-Lobos em catálogo no Brasil. O repertório traz choro, música nordestina, caipira, sertaneja, MPB, samba e instrumental, entre outros gêneros. A gravadora passou a atuar, também, na edição de músicas e no mercado editorial de livros.

Colocar os títulos citados acima no mercado é de uma importância multicultural imensa, destacadamente para os amantes e sobreviventes da boa música brasileira.  Começamos com o álbum “Mutirão da Vida”, lançado originalmente em 1984 pela Kuarup, produzido por Mario de Aratanha. O álbum tem direção musical de Jaques Morelenbaum e uma banda para lá de original. Acompanhando a cantoria “Cumeno cum Cuentro”: Jaques Morelenbaum (cello), Alex Madureira (viola), Marcelo Bernardes (sopros), Mingo (percussão). Das 12 faixas do CD, destaco o coco sincopado, dos inesquecíveis Jacinto Silva e Onildo Almeida, “Gírias do Norte” e as cantorias do Elomar “Violêro”, “O Pedido/Clariô” e “Kukukaya” de Cátia de França. 
O segundo álbum relançado é um dos mais importantes da discografia do cantador Xangai, trata-se do aclamado disco “Xangai Canta Cantigas Incelenças Puluxias e Tiranas de Elomar”, que está completando 30 anos de seu lançamento. Xangai mergulha no açude sonoro do primo Elomar e tem sua bênção para emprestar a voz em 10 temas, que são acompanhados pelo próprio Elomar ao violão e pelos músicos João Omar (violão), Jaques Morelenbaum (cello), Marcelo Bernardes (flauta), Eduardo Morelenbaum (clarineta), Eduardo Pereira (viola). O repertório é de uma beleza quase indecifrável, por conta de sua magia extrema, só mesmo ouvindo para se ter noção do quanto ainda precisamos estar atentos a essa atmosfera simbólico-musical do artista.

O terceiro álbum é “Cantoria de Festa”. Décimo segundo trabalho do músico, que passeia pelos ritmos brasileiros. Do sertão, temos o forró, arrasta-pé, xote, baião, coco, galope e rojão, cada faixa é uma verdadeira festa. Agradecimentos especiais à Kuarup por preservar a cultura musical brasileira com tanto esmero.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O que ninguém ensina

Edição e revisão: Marsel Botelho


                                                   Segundo álbum mostra amadurecimento na poesia e nas melodias. Artista pronto para trilhar os árduos caminho da verdadeira música brasileira.


Quando um artista tem o dom de reunir 11 temas em um CD e esses temas nos tocam profundamente é porque a música que esse artista faz tem sentimento e vida embutidos nas melodias e nas poesias que a vestem. Escrevo sobre o compositor, cantor e arranjador mineiro Cláudio Faria, que lança seu segundo álbum, “Cláudio Faria – O Que Ninguém Ensina”. Produzido pelo próprio artista, O CD é lançado pelo selo “Ultra Music”.
O talentoso Cláudio Faria está na estrada há mais de 30 anos, já tocou com músicos como Flávio Venturini, Toninho Horta, Claudia Cimbleris, Lô Borges entre outros. Hoje se divide entre a carreira solo e a banda de Beto Guedes, onde é tecladista e faz os vocais.

O CD abre com uma declaração de amor em “Simples Canção” (C.F), o cantor tem as participações especiais dos conterrâneos o acordeonista Célio Balona e a cantora Vanessa Falabella, com quem divide os vocais. Ainda na temática do amor, o cantor nos apresenta um belo tema, “Ama Por Amar” (C.F), destaque para o quarteto de cordas, que tem os arranjos assinados pelo próprio artista. Cláudio foi extremamente feliz ao escolher, do repertório do gênio Beto Guedes, a canção “Tudo em Você” (Beto Guedes/Ronaldo Bastos). Com o andamento mais lento e com o luxuoso arranjo de cordas, o cantor deixa a música exalar, penetrar os poros e nos invadir por completo, trazendo uma sensação em que beleza e nostalgia nos levam à reflexão do seu fazer artístico. Com certeza esse é um dos temas belíssimos do CD.

“Motivo” (C.F) é uma daquelas canções que faz pulsar em nós o desejo de tê-la escrito. É completamente cheia de sentimentos que nos fazem voltar no tempo, por vezes distantes e outras vezes muito perto, como se pudéssemos tocá-los. Poesia e canção, metalinguagem de amor e vida, nos levam à instigante “Paisagem Lunar” (C.F): “...Se quer saber, tem que prestar atenção e decifrar doce canção, feita de silêncio e sons...” A canção “Sob o Sol do Rio” (Cláudio Faria) retrata a poética cidade maravilhosa e é eternizada pela terceira vez: teve sua primeira gravação no CD “Porque não tínhamos bicicleta”, de Flávio Venturini e no primeiro álbum do cantor, “O Som do Sol”. Com arranjo novo, o cantor tem a participação especial de Leila Pinheiro.

A melancolia em que a canção “Meu Porto” (Cláudio Faria/Leila Pinheiro) nos envolve, e dela também nos resgata, pode ser brindada com uma boa safra de um tinto seco. A canção, que dá título ao álbum, “O que ninguém ensina” (Rodolfo Mendes/Cláudio Faria), a letra nos diz: “Até quando a gente vai viver/Para aprender o que ninguém ensina/Não há tempo pra se arrepender...” Em “Ar de Mistério” (C.F), o tema, que é uma bossa, traz em sua letra o personagem “vampiro”, que vai “sugar o sangue do amor”. O álbum também mostra um compositor maduro, que escreve muito bem para quarteto de cordas. “Em Quatro Luas” definitivamente temos a constatação. Para finalizar, ouviremos Águas do sossego (C.F) um místico poético pintado de poesia, com a tinta de um ouro tão eterno quanto o desejo de ser, viver e transbordar, em cada melodia, um pedaço inexplicável de paz.