quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Com a mão no “O Terço”

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Se há um músico que pode ser chamado de líder de banda hoje no Brasil, esse músico e Sérgio Hinds que, há mais de 40 anos, lidera e mantém viva a lendária banda de rock progressivo, “O Terço”. Hinds, considerado pela crítica especializada como um dos maiores guitarristas brasileiros de todos os tempos, também é um dos fundadores da banda e tem papel fundamental em sua trajetória desde a formação inicial, que contava também com Jorge Amiden (in memoriam) e Vinícius Cantuária. O Terço, nessas quatro décadas, teve inúmeras formações, mas a considerada “clássica” tinha Flávio Venturini, Sergio Magrão (14 Bis) e Luiz Moreno (in memoriam).
O “O Terço” não estaria aí hoje sem a perseverança de Sérgio Hinds que, durante esse período, contou com 24 músicos, ao todo. O reencontro com a formação mais enaltecida pelos fãs e pela crítica aconteceu no aniversário de 50 anos de Flávio Venturini, em 2001, que convidou os amigos Sérgio Hinds, Sérgio Magrão, Luiz Moreno e Cezar de Mercês para subirem ao palco e tocarem juntos clássicos como “1974” (Flávio Venturini). Nasceu dessa liga o desejo de reativar a banda, para futura gravação de um CD/DVD, mas a fatalidade bateu à porta do projeto, pois Luiz Moreno veio a falecer um ano depois. Incentivados por Irinéia Maria Ribeiro, viúva do músico, a banda resolveu, em 2004, iniciar os ensaios e, para substituir Moreno, convidaram o baterista Sérgio Melo. Em 2005 foi gravado o concerto no Canecão (RJ), mas apenas em 2007 o CD/DVD foi lançado pela gravadora Som Livre, sem as músicas “Jogo das Pedras”, “Queimada”, “Eu Vi Aquela Lua Passar” e o hino da banda, “Hey Amigo” – músicas não autorizadas na época por Cezar de Mercês, por conta de um desentendimento, hoje superado entre os amigos.
Um novo projeto intitulado “O Terço 3D”, com as canções que ficaram de fora do primeiro DVD, já foi gravado e aguarda lançamento em 2015. Enquanto isso, Hinds resolveu presentear os fãs da banda com um repertório totalmente “lado B”, com as canções “Amanhecer Total”, “Gente do Interior”, “Adormeceu”, “Lagoa das Lontras”, “Deus”, entre outras. É bom frisar que o show não é do “O Terço” e sim, Sérgio Hinds tocando músicas menos executadas em shows. E o presente não para por aí: Sérgio convidou Cezar de Mercês e Roberto Lazzarini (Terreno Baldio) que farão participações especiais. Esse show vai acontecer dentro do Moto Rock Fest – Festival de Rock Progressivo, que ainda terá “Pedro Baldanza Trio” tocando o repertório da inesquecível banda “Som Nosso”, a banda “Apokalypsis”, lançando o CD “40 Anos” e a recém-formada “Banda 70 de Novo”, formada por Gerson Conrad (Secos e Molhados), Pedro Baldanza, Cezar de Mercês, Zé Brasil e Silvia Helena. Tudo isso vai acontecer no sábado, 29, a partir das 18h, no Via Marquês – Av. Marquês de São Vicente, 1.589 – Barra Funda. Ingressos a R$ 30,00.
Sérgio Hinds, a lenda viva do rock progressivo no Brasil, há mais de 40 anos, com a mão no “O Terço”.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Cláudia Beija, chegando para ficar

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Às vezes precisamos esperar um certo tempo para termos a certeza de que chegou a hora de assumirmos determinadas decisões. Acho que é assim que a pernambucana Cláudia Beija se vê ao lançar seu primeiro CD solo, com mais de 30 anos de carreira, boa parte dela como backing vocal de artistas consagrados. Seu primeiro CD, A.M.A.T.E.R, resume bem essa necessidade da cantora em mostrar que pode assumir o palco e fazer a canção chegar de forma sublime aos ouvidos daqueles de bom gosto musical. Produzido por Caca Barretto, o álbum conta com 14 canções e faz a ponte entre o clássico e o contemporâneo. Dona de uma voz doce e melodicamente afinada, Cláudia é capaz de nos conquistar da primeira à ultima música, tornando-nos personagens de suas canções. O álbum já é cotado como um dos mais belos trabalhos produzidos na “terra do frevo”.
O CD abre com a música-convite “Vamos a Marte” (Henrique Macêdo/Paulo Marcondes). Nela, a poesia se funde à canção e a doçura que salta da voz de Beija dá o tom da busca da liberdade e da vontade de ser feliz, seja lá onde for. Com um arranjo de cordas e uma percussão que trafega pela melancolia do poema, numa das mais belas do álbum, Cláudia se veste de emoção para, na tristeza do canto, nos agraciar com “Engano Seu” (Diogo Andrade). Neste primeiro trabalho Cláudia abriu o leque para os compositores da sua terra e, dos parceiros Júlio Morais/Ylana Queiroga, gravou “Nossa”. Com uma interpretação impecável a cantora pernambucana gasta seu inglês ao interpretar a “quarentona” “Nothing to Lose” (Henry Mancini/Donald Black).
O tão gravado “Poeta da Vila”, Noel Rosa, ganha de Beija uma interpretação digna de sua canção, “Último Desejo”, que nos transporta para um botequim onde iremos, entre um gole e outro, afogar nossas desilusões. “Terminei Indo” (China/Yuri Queiroga/Jr. Black) é mais uma boa canção dos compositores da cena pernambucana. Na sequência, Cláudia presta uma linda homenagem a uma das bandas mais importantes da música brasileira, a “Banda de Pau e Corda”. Ao gravar “Vivência” (Sérgio de Andrade/Waltinho), de 1973, a cantora entoa as notas solenemente, permitindo-nos voltar no tempo. Um arranjo irrepreensível.
Uma canção mais introspectiva se ouve em “Um Dia Lindo de Morrer” (China), em que a intérprete tem a participação especial do autor. Cláudia investe em seu lado compositora e grava “Eu Saio (Um Dia)” (Cláudia Beija/Caca Barretto). Uma sátira que reflete bem os festivais de música por este país afora, ouviremos em “Só que Deram Zero pro Bedeu” (Luiz Vagner). “O Habitat da Felicidade” (Lula Queiroga/Lucky Luciano) é canção pra se ouvir com a alma. Quer ouvir um bom samba? Então é só aumentar o som em “Samba Tem” (Ze Manoel/Guilliard Pereira). Com participação especialíssima de Elba Ramalho, com quem Cláudia Beija divide os vocais, ouve-se “Flor de Maracujá” (João Donato/Lysias Enio). Para finalizar este primeiro de muitos, uma ciranda praieira em “Fonte” (Caca Barretto/Paulo Marcondes).

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Vinte anos de “Noites com Sol"

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Um dos CDs mais importantes da música brasileira – “Noites com Sol”, do compositor e cantor mineiro, Flávio Venturini – acaba de completar 20 anos do seu lançamento. O ano era 1994, ano do Tetra e ano em que a carreira de Flávio também tomava novos rumos pela parceria com sua empresária e sócia, Fabiane Costa. Depois de gravar dois LPs com o grupo O Terço e oito com a banda 14 Bis, Flávio parte para a carreira solo e grava os LPs/CDs “Nascente” (1982), “Andarilho” (1985), “Cidade Veloz” (1990) e “Flávio Venturini ao Vivo” (1992). “Noites com Sol” (1994) saiu pela gravadora Velas, do Ivan Lins e do Vitor Martins. O álbum é considerado um divisor de águas na carreira deste que é um dos maiores melodistas da MPB de todos os tempos.
Produzido por Torcuato Mariano, o CD conta com 11 canções, sendo duas regravações e uma versão. Flávio encontrou em Torcuato a parceria certa e, nela, o fio condutor para o sucesso alcançado por esse trabalho. O álbum lhe rendeu seu primeiro “Disco de Ouro”. O show percorreu os grandes palcos do País e o lançamento em São Paulo ocorreu nos dias 4 e 5 de abril de 1995, no Teatro TUCA. Flávio volta ao pop, sem abandonar o romantismo de suas baladas. O CD emplacou em duas novelas globais: “Fera Ferida” com a canção-título “Noites com Sol” e “Quatro por Quatro”, com a clássica “Clube da Esquina Nº 2”. Além de uma super banda formada por Pantico Rocha (bateria), Marcelo Mariano (baixo) e Torcuato Mariano (guitarra), as gravações contaram com as participações especiais de Marcelo Martins (sax), Nico Assumpção e Arthur Maia (baixo), Cláudio Venturini (guitarra), Rildo Hora (gaita), Toninho Horta (violão), Marcelo Costa (percussão), os cantores Ritchie, Ana Zinger, Julio Borges e o quarteto vocal Be Happy.
Este álbum também marca a estreia do letrista Alexandre Blasifera, que assina as canções “Quando Você Chegou”, “Um Cupido Me Falou”, “No Cabaret da Sereia” e “Sobre o Mar”. As regravações são: “Nuvens” (Flávio Venturini/Ronaldo Bastos) e “Clube da Esquina Nº 2” (Milton Nascimento/Lô Borges/Márcio Borges). Na primeira, originalmente gravada no LP/CD “A Nave Vai” (14 Bis, 1985), além do arranjo que prioriza as programações de loopings e samplers, Flávio dobra as vozes e ganha um texto do autor da letra, declamado no meio da canção. A segunda ganha de Venturini a melhor e mais emocionante interpretação desta composição. O artista grava as canções “Calor/Across the River” (Bruce Hornsby/John Hornsby – versão de Mu Chebabi), “Navios” (Torcuato Mariano/Pierre Aderne) e a espiritualizada “Luz Viva” (Flávio Venturini/Juca Filho). Com Ronaldo Bastos ele gravou “Nuvens”, “O Que Tem de Ser” e a já clássica, “Noites com Sol”. Hoje Flávio contabiliza 15 CDs na carreira solo.
Para comemorar os 20 anos deste álbum antológico ele volta a São Paulo no Theatro Net, dia 14, às 21 horas, num show cheio de surpresas e participações. O repertório contempla o CD homenageado e o mais recente, “Venturini”. Imperdível.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quando o matuto é moderno

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas



Em dezembro de 1999, quando gravaram seu primeiro CD, “Bojo Elétrico”, os músicos do Matuto Moderno não imaginariam ir tão longe, a ponto de chegar a comemorar 15 anos de estrada. Não que falte qualidade, pois isso é o que sobra a cada integrante da banda. É difícil em um país como o Brasil ver um grupo que faça integração entre a música caipira das modas de viola, a catira, passando pelo pagode e se encontrando no rock sem a preocupação óbvia de seguir um padrão estético.
Eles são: Ricardo Vignini (viola caipira elétrica), Marcelo Berzotti (baixo e voz), Douglas Las Casas (bateria), Zé Helder (viola caipira e voz), Edson Fontes (voz e catira) e André Rass (percussão). Com esse trabalho o grupo consegue inserir a cultura tradicional e resgatar para dentro dela os jovens – até mesmo os que não curtem a música caipira de raiz, já que os arranjos modernos acabam atraindo esse nicho do público.
Nesses 15 anos foram gravados cinco CDs. O último, intitulado “Matuto Moderno 5” foi gravado ao vivo em um sítio na cidade mineira de Pedralva, registrado da forma mais crua possível, resgatando a maneira como eram gravados os álbuns na década de 70. O álbum tem a produção assinada pelo Matuto Moderno, por Alexandre Fontanetti e André Ferraz. Com 10 faixas, o trabalho começou a ser gravado em três de setembro de 2011, literalmente na roça. Tudo e todos os planos se encaminhavam bem até o percussionista e cofundador da banda, Mingo Jacob, vir a falecer no dia 28 de julho, um mês antes do início das gravações. “Essa era a vontade do Mingo, então, o disco será dedicado a ele”, escreve Ricardo Vignini no encarte do CD.
O álbum abre com uma parceria entre Ricardo Vignini e o irreverente André Abujamra. Em “Topada”, a pedra é o tema central, que vai da beira do caminho até aquelas encontradas nos rins. Boa sacada para esse rock caipira. Com um vocal que lembra muito os irmãos Pena Branca e Xavantinho, “Eco Macaco” (R.Vignini) nos convida a uma reflexão profunda sobre nossa evolução. A típica moda de viola se ouve na boa “Mancacá” (M. Berzotti/Z. Helder/R.Vignini).
Matuto Moderno consegue nos envolver nesse som sertanês de avenidas emolduradas pelas cordas da viola sintetizada. Em “Escuro” (Paulo Nunes/R. Vignini) o destaque fica por conta dos efeitos que nos puxam para dentro de um rock com letra que nos questiona a todo o momento sobre nossa existência. Em “Rio Sepultado” (Z. Helder), além da aula sobre os peixes que deixaram de habitar nossos rios, se ouve um pouco de tudo, desde a moda de viola, passando pela “caixa de folia”, ao rock. Isso é Matuto Moderno: um rio imenso a ser navegado. Na sequência ainda ouviremos “O Tombo” (R. Vignini), “Recorte de Abater” (E. Fontes), “Fulaninha” (Z. Helder), “Caixa de Maribondo”, uma instrumental, (R. Vignini/Carlinhos Ferreira) e “Viola Fala, Alma Reza” (M. Berzotti).
Conheça o poder dessa alquimia boa no show da próxima sexta-feira, com direito a surpresas. 

SERVIÇO: Choperia do SESC Pompeia – 7 de novembro de 2014, às 21h30. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pérolas para colecionadores

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas



Quem é colecionador sabe o quanto representa ter em sua discoteca CDs de valores históricos como os que a gravadora Kuarup acaba de colocar no mercado. O presente é triplo e traz os artistas João Bosco, Eliete Negreiros e Telma Costa, que tiveram suas obras relançadas nos formatos CD e digital. Coincidência ou não, todos os álbuns têm mais de 30 anos de seu lançamento em LP. Com isso, a Kuarup presta a todos nós, velhos amantes da MPB, e à nova geração, um serviço de resgate de obras já tão exaltadas.
Quinto LP do mestre João Bosco, “Tiro de Misericórdia” foi lançado em 1977 pela gravadora RCA (hoje Sony Music). Inédito em CD, o álbum é composto por 11 canções da parceria vitoriosa com Aldir Blanc. A música de João tem vida, tem histórias pra lá de curiosas e tem a ditadura, tão presente em suas canções. O repertório é este: “Gênesis”, “Jogador”, “Falso Brilhante” (canção que deu título ao LP de Elis Regina de 1975), “Tempos do Onça e das Feras”, “Sinal de Caim”, “Vaso Ruim Não Quebra”, com participação especial de Cristina Buarque, “Plataforma”, "Me Dá a Penúltima”, “Bijuterias”, “Tabelas” e “Tiro de Misericórdia”.
O LP “Outros Sons”, disco de estreia da cantora e compositora paulistana Eliete Negreiros, ganha versão CD/digital após 32 anos de seu lançamento de forma independente pela gravadora Voo Livre. O álbum é um dos mais significativos da chamada Vanguarda Paulista. Com produção e direção musical de Arrigo Barnabé, a audição abre com “Pipoca Moderna” (Sebastião Biano/Caetano Veloso), a faixa que dá nome ao disco,“ Outros Sons” (de Arrigo Barnabé com letra de Carlos Rennó), “Peiote” (Paulo Barnabé), “Selvagem” (Gilberto Mifune), “Brinco” (Arrigo Barnabé), “Coração de Árvore” (Robinson Borba), “Sonora Garoa” (Passoca), “As Time Goes By” (Herman Hupfeld), “Begin the Beguine” (Cole Porter, versão de Haroldo Barbosa), “Sol da Meia-noite (Midnight Sun)” (J. Mercer, S. Burke, L. Hampton, versão de Aloysio de Oliveira), “Febre de Amor” (Lauro Maia), “A Felicidade Perdeu Meu Endereço” (Claudionor Cruz/Pedro Caetano), “Espanto” (Eliete Negreiros), Itamar Assumpção entrou com “Fico Louco” e “Tudo Mudou” (Arrigo Barnabé).
Para fechar o tríplice lançamento, a Kuarup nos blinda com o relançamento do álbum “Telma Costa”, primeiro trabalho da cantora mineira de voz ímpar, capaz de alcançar os sete tons. Com a assinatura de Dori Caymmi, na produção, o álbum conta com dez canções, além da participação especial de Caetano Veloso, com quem divide os vocais em “'Certeza da Beleza” (Caetano Veloso). O álbum traz clássicos como: “Espelho das Águas” (Tom Jobim), “Coisa Feita” (Aldir Blanc/João Bosco/Paulo Emílio), “Fruta Boa” (Milton Nascimento/Fernando Brant), “Ilusão” (Dory Caymmi/Paulo Cesar Pinheiro), “Lembra” (Ivan Lins/Vitor Martins), entre outras. Prestes a completar 25 anos de sua morte, em 7 de novembro, Telma tem em sua filha, Fernanda Cunha, a continuação de seu legado.
Três estilos distintos da MPB, felizmente, de volta às prateleiras!