quarta-feira, 27 de julho de 2016

Encontro Eternizado


                                                                               Edição e revisão: Marsel Botelho


                                                              Quarenta anos de amizade, música e poesia




Chegou a hora de o público paulista ter a oportunidade de assistir ao lançamento do CD duplo e do DVD “Encontro Marcado” de Flávio Venturini, Sá & Guarabyra e 14 Bis (Cláudio Venturini, Sérgio Magão, Vermelho, Hely Rodrigues). Coprodução de Cadoro Eventos, Nó de Rosa e Canal Brasil. Sem dúvida esse é um dos encontros mais importantes da música brasileira, pois reuni sete músicos que comungam poesia, música e amizade. Tudo começou em 30 de maio de 2008, no Chevrolet Hall, Belo Horizonte (MG). Na ocasião, o saudoso Zé Rodrix (1947-2009) integrava o emblemático trio “Sá, Rodrix & Guarabyra”. Três anos depois aconteceu, no mesmo local, o segundo encontro, com formato similar, porém, algo faltava naqueles shows: três grandes atrações no palco, com pouca troca entre eles. O terceiro “Encontro Marcado” deu o ponta pé inicial, em 7 de março de 2015, na capital mineira, levando o público ao delírio. O show chegou à capital paulista em 15 de maio do mesmo ano.

Agora eternizado em áudio e vídeo, o “Encontro” foi gravado em 24 de abril de 2016 no Teatro do Sesi em Belo Horizonte
(MG).  Não foi fácil reunir essa galera para rearranjar e produzir esse novo show, pois todos têm agendas lotadas. Lembro-me de que no início havia certa dúvida de quem seria a banda base desse encontro: Os músicos de Sá & Guarabyra ou a banda de Flávio, mas o14 Bis é uma banda e tudo se encaixou normalmente. O repertório do CD e do DVD traz da dupla Sá & Guarabyra as canções “Primeira Canção da Estrada”, “O Pó da Estrada”, “Me Faça Um Favor”, “Jesus Numa Moto”, “Mestre Jonas”, “Dona”, “Sobradinho”, “Pássaro”. Da carreira solo, Flávio Venturini apresenta: “Nascente”, “Noites Com Sol”, Céu de Santo Amaro”. Constam do repertório do 14 Bis as canções “Sonhado o Futuro”, “Uma Velha Canção Rock’n Roll”, “Mesmo de Brincadeira”, “Nave de Prata”, “Nova Manhã”, “Todo Azul do Mar”, “Natural”, “Mais Uma Vez”, “Planeta Sonho”, “Linda Juventude”. Da parceria de Sá com Flávio, ouviremos a canção “Criatura da Noite”, gravada pela banda O Terço. De Sá e Magrão, “Caçador de Mim”, gravada pelo 14 Bis. De Guarabyra e Flávio, “Espanhola”, gravada pelo 14 Bis e por Sá & Guarabyra. Ainda temos o tema que sintetiza todo esse encontro: “Canção da América” (Milton Nascimento/Fernando Brant):  “Amigo é coisa para se guardar/Debaixo de sete chaves/ Dentro do coração/Assim falava a canção que na América ouvi...”

 É de suma importância informar aos meus leitores que o grande elo desse encontro é a dupla Sá & Guarabyra. De certa forma, eles abriram as portas, em 1974, tanto para Flávio Venturini, quanto para Sérgio Magrão. Nessa época, ambos foram músicos da dupla e, consequentemente, viraram parceiros em grandes temas. Outro fato relevante são os fãs da banda 14 Bis da década de 1990, que terão a oportunidade de ver um show com o fundador da banda, Flávio Venturini.

O Show “Encontro Marcado” acontece dia 30 (sábado), 22h – City Bank Hall – Avenida das Nações Unidas, 17.955 – Santo Amaro, SP.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Carolina

 
Edição e revisão: Marsel Botelho


                        Cantora visita obras de mestre que fizeram parte  de sua formação musical





O fato de nascermos em um berço literalmente musical não nos garante que teremos o mesmo destino e a qualidade para seguirmos nossa própria trilha. Com a cantora carioca Carol Saboya foi diferente, pois além de nascer em um berço privilegiado, conseguiu mostrar que foi além do DNA musical e, com duas décadas dedicadas à música, a cantora nos apresenta seu 12º álbum, intitulado “Carolina”. O CD, produzido por seu pai, Antonio Adolfo, que é um dos grandes músicos e arranjadores que temos no Brasil e no mundo, conta com 10 temas e mostra a influência da cantora. Afinadíssima e dona de um belo timbre, que vira moldura para a canção Carol, resolveu batizar esse trabalho com seu próprio nome, que tem origem alemã e significa “uma mulher forte, cuidadosa e amorosa”. Assim a artista se sente.

Tem certos discos que já nascem clássicos, como esse de Carol, cujo repertório, escolhido a dedo, não tem a preocupação de pegar as canções mais conhecidas de seus autores. Fazer uma releitura é sempre algo de enorme responsabilidade, mas a cantora teve um carinho todo especial e se entregou a cada canção como se fosse sua. Autores como Jobim, Chico Buarque, Djavan, Pixinguinha, Edu Lobo, Vinicius, João Bosco, Belchior, Lennon e McCartney, além de sua grande paixão Sting, estão presentes na voz doce e marcante da artista.

Como costumo escrever, gostaria que a juventude pudesse ter acesso, através da grande mídia, a obras como essa, que priorizam a poesia, as melodias e as harmonias elaboradas, mostrando a cara da música/arte, que a cada dia perde espaço para o mau gosto divulgado através de canais que chegam de modo avassalador aos lares brasileiros.

A audição abre com a clássica “Passarim” (A. C. Jobim), gravada originalmente pelo maestro em 1987, no disco de mesmo nome. O arranjo de Antonio Adolfo é algo sublime, como todos que ele assina nesse álbum, para o qual sua filha empresta a voz. Que maravilha relembrar o mestre Pixinguinha e seu choro “1 x 0” (de 1946), em parceira com o flautista Benedito Lacerda! O tema ganhou letra de Nelson Ângelo em 1993, tema o qual ouviremos agora. Da dupla João Bosco e Belchior, a cantora se entrega em “Senhoras do Amazonas” e nos presenteia com sua voz cristalina. Quem da geração da cantora não foi conduzido pelas canções dos Beatles? Carol escolheu para compor esse álbum “Hello, Goodbye” (John Lennon/Paul McCartney), pela leveza natural da canção, que se enquadra na sua forma de cantar. Do cantor e compositor alagoano Djavan, a cantora escolheu “Avião” e a mega clássica “Faltando um pedaço”. Sem palavras. Do ídolo Sting, a escolhida foi “Fragile”; mesmo com 30 anos a canção ainda é super atual, sua letra diz: “É hora da gente parar e pensar em ‘ ...quão frágeis nós somos’.” Vale a audição.


 “A felicidade” (A. C. Jobim/Vinicius de Moraes) e “Olha, Maria”(A.C. Jobim/Chico Buarque/Vinicius de Moraes) mostram que a cantora tem uma admiração pelos temas do maestro soberano. Para finalizar essa audição finíssima, ouviremos “Zanzibar”(Edu Lobo). Esse será um disco de cabeceira, com certeza.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Xangai voz e violão


 Edição e revisão: Gesu Costa


                                                                                            Interprete de um povo, Xangai canta suas alegrias, tristezas , e seus amores. A poesia brota da terra e ele a transforma em canção.



          Há quarenta anos que a voz de Eugênio Avelino, o Xangai, ecoa pelos rincões desse Brasil, terra esta que precisa ser redescoberta musicalmente, pois o que se ouve por aí nas grandes mídias é algo estranho e com menos poesia, pois em nada lembra o cheiro da terra.
           Depois de um hiato de 10 anos entre seu último trabalho “Estampas Eucalol” (Kuarup, 2006), o cantador e violeiro nos presenteia com o 17º álbum da carreira intitulado de “Xangai”. As 14 faixas são um misto de releituras e inéditas produzidas pelo violonista costa-riquenho Mario Ulloa e lançado no mercado nos formatos digitais e CD pela gravadora, selo e editora Kuarup, que acredita na música brasileira.

          Xangai está num momento único na sua carreira de quatro décadas, vive ele próprio na tela da novela Velho Chico (Globo). Ganhou o prêmio de melhor cantor regional na 27ªedição do Prêmio da Música Brasileira. Ele é o autêntico porta –voz da música sertaneja interiorana nordestina e o principal interprete do Malungo e cantador Elomar.  A Kuarup promete relançar ao longo desde ano a discografia do artista.

           Nada poderia ser mais natural que a gravação desde disco, realizado na varanda de uma fazenda na Bahia, porque o som foi captado de sua voz e violão, garantindo assim a este CD o mais visceral possível. Nele o cantador coloca a voz a serviço da canção e toca seu violão sem as batidas (tão convencionais atualmente) só dedilhando, explorando as harmonias. Ouviremos a faixa que abre esta audição toda especial, a inédita “Ino do Cangaço” à capela (Xangai/Ivanildo Vila Nova). Gravado pelo mito Jackson do Pandeiro em 1955 “Forro em Caruaru” (Zé Dantas) que tem inúmeras regravações, inclusive, do rei do baião Luiz Lua Gonzaga, ganha agora de Xangai uma roupagem nova com seu estilo peculiar.

          Do poeta, escritor e humorista Jessier Querino o artista gravou “Bolero de Isabel” a temática da conquista do amor na forma mais simples, onde o desejo aflora em aromas, sabores e imagens. Título do último álbum gravado “Estampas Eucalol” (Hélio Contreiras) o artista canta de forma ímpar a mitologia Grega com a realidade brasileira. Do disco “Qui Tu Tem Canário” o cantador escolheu a bela “Água” (Xangai/Jatobá) para compor esses 14 temas.

          Do amigo e compadre Renato Teixeira, ouviremos “Pequenina” escrita especialmente para o cantor. Usando a voz, as mãos e o peito como percussão o artista canta o “Gago Grego” do inesquecível rei do coco sincopado Jacinto Silva, gravado no CD “Brasileirança” (2001) que dividiu com o Quinteto da Paraíba. Da poetisa Portuguesa Florbela Espanca, adaptou o poema “Eu”.  Neste álbum ainda ouviremos “Espiral do Tempo” (Geraldo Azevedo/Carlos Fernndo),”Em Nome do Sol”( Xangai/Jacinto Silva), “Menino Gaiteiro” (Xangai), “João e Duvê” (Maciel Melo), “Meus Tempos de Criança” (Ataulfo Alves) e “Quem Ama perdoa” (Juraildes da Cruz). Vida longa ao Xangai, que  canta nos encantando.




quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Retrato Musical de Charles Theone

 Edição e revisão: Niro Kubota

 A mistura de ritmo deste álbum é o grande tesouro musical 



                     O nordeste é um terreno fértil na amplitude cultural brasileira, doando nos grandes nomes e grandes obras. Charles Theone é um desses nomes que brotou da cidade de  Inajá sertão pernambucano para mostrar sua arte para o mundo, pois além de músico, cantor e compositor, esse sertanejo radicado na cidade maravilhosa também é ator.  Apresentando nos seu terceiro álbum “Charles Theone”, o artista nos doa 10 faixas produzidas pelo mago Paulo Rafael que são verdadeiros retratos sonoros que nos remete a imagens a cada audição. Theone gravou seu primeiro CDTambor do Mundo” a exatos 10 anos mais foi a frente do grupo de Maracatu Nação Pernambuco que as portas do mundo da arte se abriram pois o artista cantou em mais de 80 cidades europeias. No carnaval pernambucano quando seu bloco passava em frente à casa de Alceu Valença, eles eram convidados a subir na varanda mais famosa do Sítio Histórico de Olinda. Deste encontro nasceu uma amizade. Charles vive um momento único na carreira pois além do disco ele é um dos protagonistas, ou antagonista, do filme A Luneta do Tempo, escrito e dirigido por seu padrinho musical Alceu Valença. “Ele me ensinou a ser solto, leve, ajudou na comunicação, ser contemporâneo, e ele foi fundamental nessa minha coisa de compor”, diz Charles.

               O álbum abre com o autêntico samba “Noite Escuras” (Charles Theone/Júlia Ventura). “Enfeitiçado fiquei/Numa roda de samba entrei/Era pura magia, uma estrela me guia/Com a força do tambor (Iansã). A repetição de “Essa boca é doce eu quero provar” marca a bela Bossa “Doce” ( Charles Theone/Dado Amaral). Ouvir Charles Theone é fazer um mergulho em nossa cultura com ritmos como: maracatus , Xotes, Calangos, Cocos, sambas entre outros. Em “Pai do Samba”( C.T), destaque para o suingue e o solo de trombone de Nilsinho Amarartes. O ritmo calango pouco conhecido hoje em dia principalmente entre os jovens ganha do cantor uma leitura maravilhosa em “Cuidado com Mané” (C.T). Com participação especialíssima da cantora Daúde Charles canta “Como Quem Não Quer Nada” (Charles Theone/Jam da Silva).

          A música preferida desde álbum para mim  é “Estrela da Paz” (Charles Theone/Wendel Bará), um maracatu moderno, uma melodia gostosa e uma letra direta que toca fundo. O teclado de Márcio Lomiranda e a guitarra de Paulo Rafael remete aos timbres da banda de Alceu. Não tenha pudor e aumente o som vale, a viagem. Sabe aquele xote bom para falar agarrado no cangote da garota enquanto a arrasta pelo salão? Pois bem, se ouve em “Maça Dourada” (Charles Theone/Júlio Moura). Um autêntico Soul com pitadas de samba, funk e maracatu podemos ouvir em “Festas dos Orixás” (C.T). A penúltima  canção “Chicos e Francisco” (Charles Theone/Edson Natureza) prestam uma homenagem a nomes como: Francisco de Assis, Chico Xavier, Chico Anísio, Chico Mendes, Chico Buarque, Chico Cesar, Chico Science, Xica da Silva, Chiquinha Gonzaga e Francisco Zumbi. Vale ouvir. Para finalizar um passeio sonoro por Olinda em “Olinda Cidade Mulher” (Charles Theone/Chico Esperança). 







quarta-feira, 29 de junho de 2016

Alfredo Bello


                                                                                  Edição e revisão: Gesu Costa


                                                                                    Uma viagem sonora




                Caros leitores, conhecem ou já ouviram falar de Alfredo Bello –DJ Tudo? O destaque desta semana vai para o CD “Gaia Música- DJ Tudo E Sua Gente De Todo Lugar” que conquistou o prêmio de melhor álbum na categoria Eletrônico do 27° Prêmio da Música Brasileira, que aconteceu na quarta (22), no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O álbum é o quinto da carreira e o primeiro de uma série de discos sobre encontros culturais, no primeiro ouviremos nove faixas do Brasil, Norte da Índia, Indonésia e Mali. Um disco de cultura do mundo para ser ouvido com atenção para apreciar os detalhes da rica sonoridade.

           Podemos dizer que Alfredo Bello (Luiz Alfredo Coutinho Souto) acredita na música tradicional e cultural que se faz nos quatro cantos do mundo, pois é dela que ele se alimenta e nos devolve com álbuns temáticos, verdadeiros tesouros musicais. O artista é premiadíssimo por sua fusão de culturas e faz seus registros através de seu selo “Mundo Melhor”.

                 O projeto deste disco teve início em novembro de 2014, na ocasião da ida a Nova Délhi, para tocar no Amarass Festival, onde começou a conceber e organizar o material que se transformou no Gaia Música volume 1.Viajou com várias ideias e seu equipamento, lá encontrou com os Barmer Boys, trio do Rajastão, norte da Índia. Eles são de tradição sufi, herdeiros da antiga classe dos músicos que tocavam para os Rajás, no Império Mongol. Cantaram e tocaram em três temas:"Paan Khilaydo", "Doro" e "Allah", além da percussão da faixa "Pequeno divertimento".

                Durante o Amarass Festival, o artista conheceu três músicos e os convidou para gravar. Rahul Sharma, tablista indiano, tocou em três temas: "Aboio pra Domitilia", "Gira da Gangira" e "Baião do Mundo". Bintang Manira, da Indonésia, tocou um trio de tambores (kendang) de seu país, com um ritmo que se mesclou muito bem com o Ijexá, na faixa que abre o CD, "O Amor de Lakshmi Oxum". A dinamarquesa Elisabeth  Dichmann, que na época estudava violino estilo indiano em Délhi, gravou na faixa "Baião do Mundo". Alfredo Contou ainda com a honrosa participação do korista Madou Sidiki Jobarteh, do Mali, membro de uma família de Griots. Ele é um dos mais importantes koristas da atualidade, já tocou com Amadou e Mariam e toca com Damon Alban do Blur, entre outros.

                   Junto com Madou, um grande mestre de cultura do norte da Índia, Lhaka Khan,  tocaram  o sindi sarangi, violino tocado de pé, da Índia. Lhaka e Madou finalizam, lindamente, o álbum, com a faixa "Ciranda dos Desertos". Voltando ao Brasil, em dezembro de 2014, o músico convidou alguns membros da sua banda "Gente de todo lugar" para gravarem os ritmos: Ijexá, Baianá, Congo de Ouro, Baiões apimentados, Coco e Ciranda. Além desses, um convidado especial, o Boiadeiro Cipó Preto F.P, que aboiou para sua mãe Domitilia, na faixa "Aboio pra Domitilia", e a participação do Maracatu Imaginário Mundo Melhor, da Bomba do Hemetério - Recife/PE