quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

“Folias de um Natal brasileiro”

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Assim como os três Reis Magos levaram seus presentes ao Menino Jesus, nossos três reis – o violeiro Chico Lobo, o pianista e maestro Gilson Peranzzetta e o percussionista Carlinhos Ferreira – nos presenteiam com 12 folias que ficarão eternizadas no CD “Folias de Um Natal Brasileiro”, recém-lançado pela gravadora Kuarup – verdadeiro presente de Natal! A importância de um trabalho como este, com o aval de uma gravadora que acredita na cultura do País, é a de resgatar as tradições desta cultura popular religiosa (herdada de Península Ibérica) que muitos de nós não conhecemos. O encontro entre Lobo, Peranzzetta e Ferreira é algo a ser celebrado, pois cada um deles trouxe sua parcela de contribuição para eternizar essa obra, resultando num trabalho emocional, festivo, delicado, de beleza única.
Na cultura tradicional brasileira, parte dos festejos de Natal era a comemoração da data por grupos que visitavam as casas tocando músicas alegres, em louvor aos “Santos Reis” e ao nascimento de Cristo. Essas manifestações festivas estendiam-se até a data consagrada aos Reis Magos, dia 6 de janeiro.
Prepare-se, pois o que você ouvirá vai além de três músicos apresentando seus excelentes trabalhos individuais. Nesta audição você terá contato com o Divino através das canções. Piano, acordeon, percussão e a voz quase que solene de Chico abrirão os caminhos de descoberta para muitos e, para outros, a constatação de uma crença.
Anunciado pelos cantos dos pássaros e uma percussão de efeito, Chico Lobo canta, de sua autoria, “Rezas de Uma Folia”. Sua viola e voz dialogam com o piano de Peranzzetta nos versos “Venha quem vier/E traga seu sorriso, a boa sorte e a companhia/No céu brilhou uma estrela/O galo anunciou a boa nova em cantoria”. O piano de Gilson Peranzzetta faz um solo de recepção para “Passo da Estrela”, tema recolhido por Carlinhos Ferreira e adaptado por Chico Lobo. “Deus lhes dê uma boa noite, pra quem nessa casa mora” – é com essa frase que Chico começa cantando a folia “Canto de Chegada”, também recolhida por Carlinhos Ferreira e adaptada pelo próprio Chico. Nela, Gilson toca piano e acordeon, e a percussão de Carlinhos completa a tríade.
Uma das músicas que mais me tocaram, “Canto da Porta”, também recolhida por Carlinhos Ferreira e adaptada por Chico Lobo, tem melodia que nos transporta para dentro da canção e forte religiosidade presente em cada verso. Este CD veio coroar o ano produtivo desse fazedor de arte, Chico Lobo. Músico inquieto, se deixar, ele apresenta um projeto diferente a cada mês. A quinta música, “Abre a Porta, Deixe a Folia Entrar”, é de sua autoria.
Impossível ouvir este CD e não se emocionar. Os três músicos deram seu melhor. Sobre as canções, por fim, deixo que você me dê sua opinião. No site www.passadisco.com.br se encontra esta obra de arte. À Kuarup, que neste ano nos apresentou o ontem e o hoje, meu “muito obrigado”. O Planeta MPB deseja a todos um feliz Natal e um próspero Ano Novo!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Temperos

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


O ano de 2014 foi de ótima safra para a música brasileira. Além de bons CDs produzidos pelas consideradas “estrelas”, também apresentou-se uma gama de novos valores pesquisados pelos quatro cantos do País. Estamos chegando ao final de mais um período mostrando semanalmente a milhares de leitores a música com conteúdo produzida no Brasil, além da ouvida na grande mídia. Quero agradecer a todos que fazem o Metrô News e a Folha Metropolitana por acreditarem nesse projeto, e a toda a equipe do Planeta MPB, sob os cuidados de Patrícia Chammas. Continuaremos a divulgar muito mais da nossa música que desponta, se mantém ou se resgata com qualidade e às próprias custas.
Dezembro chegou e nos apresenta uma promessa vinda da “Cidade Maravilhosa”, com requintes e condimentos nordestinos. Guidi Vieira, dona de uma voz melodicamente poética, nos presenteia com “Temperos”, seu CD de estreia, que conta com 10 canções e produção de Daniel Medeiros (Fino Coletivo).<
Há quem pense que Guidi começou a vida artística com este CD, mas não: ela já tem uma estrada percorrida desde 2006, tempo em que cantava no grupo vocal “Dá no Coro”. As noites cariocas começaram a ganhar a voz solo da cantora a partir de 2008. Para abrir a audição deste, ouviremos “Choro” (Marcello Caldeira), um xote bem pé-de-serra. Nele, Guidi é conduzida pelo toque da sanfona de Chico Chagas e sua voz dá vida aos versos embutidos na poesia nordestina, nos convidando a provar desse tempero. Seguindo o passeio por ritmos daquelas bandas, a cantora solta a voz num bom forró que leva o nome de “Samba de Pé” (Luis Pimentel/Sandro Dornelles). Guide Viera chegou em boa hora para a MPB – sua voz corre livremente pelas canções que escolheu pra cantar.
A terceira canção, “Pronta Entrega” (Arildo de Souza/Adriana Cunha), é um samba-choro – destaque para o clarinete de Paulo Sérgio Santos. As coisas do amor se ouve em “O Varal” (Marinho San/Sandro Livahck). “Temperos” (Luis Pimentel/Sandro Dornerles), música-título do álbum, nos mostra as ricas flora e fauna que muitos de nós desconhecemos. Com um ritmo dançante, ela nos atrai para um mergulho nessa letra cheia de vida. “Segunda Divisão” (Sandro Dornelles/Zeca Barreto) mostra uma crítica inteligente ao nosso cotidiano. Você acha que iria faltar um bom e autêntico samba, acompanhado do violão de 7 e de um trombone no CD de uma carioca? Três Meninos” (Luis Pimentel/Sandro Donelles) tem tudo isso e muito mais.
Guidi foi feliz na escolha de “Tigresa” (Caetano Veloso) para compor o repertório deste primeiro filho; a canção lhe caiu como uma luva e a cantora soube conduzir o clássico com uma interpretação cheia de personalidade, além de ser contemplada com um belo arranjo. A penúltima canção traz a cantora assinando a letra em parceira com Amin Nunes em “Vem de Lá”. Guidi é compositora, mas resolveu, neste primeiro trabalho, focar na interpretação. Para fechar essa audição recheada de ingredientes, iremos ouvir um blues, em “Début” (Luis Pimentel/Sandro Dornelles).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dezembros de Alaíde

Agradecimentos especiais a Patricia Chammas


Em pleno 8 de dezembro de 1935, dia de Nossa Senhora da Conceição, nascia uma das estrelas da “Constelação MPB”, Alaíde Costa, predestinada a ser uma das vozes que ganharia os palcos do Brasil e do mundo. Ela estreou no auge de sua adolescência, em 1955, como crooner da Dancing Avenida (RJ). Sessenta anos se passaram e a cantora ainda conserva a mesma afinação e interpretação dos áureos anos pré-bossa nova.
Prestes a completar 79 anos, ela resolve nos presentear com um CD totalmente autoral, carinhosamente chamado de “Canções de Alaíde”. Com direção musical, arranjos e piano de Giba Estebez, o álbum apresenta 13 composições das seis décadas de vida artística da cantora. No repertório de Alaíde sempre esteve o que ela acreditava, sem se dobrar os modismos de época. Sua música é autêntica e traz o amor como tema. A primeira canção, “Qual a Palavra?” (A.C.), traz um dueto da voz da diva com o violão de Conrado Paulino, para falar de uma grande paixão. “Quisera encontrar a palavra capaz de um dia traduzir o meu amor”. A segunda canção nos mostra a primeira parceria da cantora com o “poetinha”, Vinicius de Moraes, em “Tudo o que é Meu”.
A terceira faixa traz uma dobradinha com as canções “Ternura” e “Cadarços” – a primeira tem parceria com Geraldo Julião. A curiosidade aqui é que existia uma outra letra, assinada por uma amiga da cantora, que faleceu antes de autorizar a gravação. Já a segunda canção tem parceira com Hermínio Bello de Carvalho. Ambas foram arranjadas por Gilson Peranzzetta, que também faz participação especial, tocando piano. Com uma introdução de flauta, a voz docemente afinada de Alaíde dá vida à canção “Afinal”, assinada por ela própria. Numa parceira com Johnny Alf, “Meu Sonho” tem a participação especial de Marcelo Lima, que divide com a cantora os vocais. “Tempo Calado” (Alaíde Costa/Paulo Alberto Ventura) é uma melodia que ganhou poema de um artista plástico. Vale a audição no silêncio da noite. Giba Estebez fez um arranjo de piano que dialoga com Alaíde e nos permite fazer parte da canção ao ouvir “Saída” (A.C.).
Com participação especial de Adyel Silva, as cantoras se alternam nos vocais na bela canção “Banzo” (Alaíde Costa/José Márcio Pereira). A próxima música nos convida a mergulhar nas lembranças dos amores que ficaram para traz e, com um gole melancólico, ouviremos “Choro” (A.C.) para reativarmos o que ainda não foi superado com a partida do amor que não morreu. Muito me emociona ouvir uma cantora com tanta vitalidade e afinação aos 79 anos. Obrigado por aquecer nossos ouvidos com o bálsamo da sua voz!
As próximas quatro canções não vou descrever – você mesmo irá tirar suas conclusões ao adquirir o disco! São elas: “Apesar de Tudo” (Alaíde Costa/João Magalhães), “Você é o Amor” (Alaíde Costa/Tom Jobim), “Canção do Breve Amor” (Alaíde Costa/Geraldo Vandré) e “Amigo Amado” (Alaíde Costa/Vínicius de Moraes).
Alaíde lança o CD na Galeria Olido (centro de São Paulo), hoje, às 20 horas, com entrada franca.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Com a mão no “O Terço”

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Se há um músico que pode ser chamado de líder de banda hoje no Brasil, esse músico e Sérgio Hinds que, há mais de 40 anos, lidera e mantém viva a lendária banda de rock progressivo, “O Terço”. Hinds, considerado pela crítica especializada como um dos maiores guitarristas brasileiros de todos os tempos, também é um dos fundadores da banda e tem papel fundamental em sua trajetória desde a formação inicial, que contava também com Jorge Amiden (in memoriam) e Vinícius Cantuária. O Terço, nessas quatro décadas, teve inúmeras formações, mas a considerada “clássica” tinha Flávio Venturini, Sergio Magrão (14 Bis) e Luiz Moreno (in memoriam).
O “O Terço” não estaria aí hoje sem a perseverança de Sérgio Hinds que, durante esse período, contou com 24 músicos, ao todo. O reencontro com a formação mais enaltecida pelos fãs e pela crítica aconteceu no aniversário de 50 anos de Flávio Venturini, em 2001, que convidou os amigos Sérgio Hinds, Sérgio Magrão, Luiz Moreno e Cezar de Mercês para subirem ao palco e tocarem juntos clássicos como “1974” (Flávio Venturini). Nasceu dessa liga o desejo de reativar a banda, para futura gravação de um CD/DVD, mas a fatalidade bateu à porta do projeto, pois Luiz Moreno veio a falecer um ano depois. Incentivados por Irinéia Maria Ribeiro, viúva do músico, a banda resolveu, em 2004, iniciar os ensaios e, para substituir Moreno, convidaram o baterista Sérgio Melo. Em 2005 foi gravado o concerto no Canecão (RJ), mas apenas em 2007 o CD/DVD foi lançado pela gravadora Som Livre, sem as músicas “Jogo das Pedras”, “Queimada”, “Eu Vi Aquela Lua Passar” e o hino da banda, “Hey Amigo” – músicas não autorizadas na época por Cezar de Mercês, por conta de um desentendimento, hoje superado entre os amigos.
Um novo projeto intitulado “O Terço 3D”, com as canções que ficaram de fora do primeiro DVD, já foi gravado e aguarda lançamento em 2015. Enquanto isso, Hinds resolveu presentear os fãs da banda com um repertório totalmente “lado B”, com as canções “Amanhecer Total”, “Gente do Interior”, “Adormeceu”, “Lagoa das Lontras”, “Deus”, entre outras. É bom frisar que o show não é do “O Terço” e sim, Sérgio Hinds tocando músicas menos executadas em shows. E o presente não para por aí: Sérgio convidou Cezar de Mercês e Roberto Lazzarini (Terreno Baldio) que farão participações especiais. Esse show vai acontecer dentro do Moto Rock Fest – Festival de Rock Progressivo, que ainda terá “Pedro Baldanza Trio” tocando o repertório da inesquecível banda “Som Nosso”, a banda “Apokalypsis”, lançando o CD “40 Anos” e a recém-formada “Banda 70 de Novo”, formada por Gerson Conrad (Secos e Molhados), Pedro Baldanza, Cezar de Mercês, Zé Brasil e Silvia Helena. Tudo isso vai acontecer no sábado, 29, a partir das 18h, no Via Marquês – Av. Marquês de São Vicente, 1.589 – Barra Funda. Ingressos a R$ 30,00.
Sérgio Hinds, a lenda viva do rock progressivo no Brasil, há mais de 40 anos, com a mão no “O Terço”.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Cláudia Beija, chegando para ficar

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Às vezes precisamos esperar um certo tempo para termos a certeza de que chegou a hora de assumirmos determinadas decisões. Acho que é assim que a pernambucana Cláudia Beija se vê ao lançar seu primeiro CD solo, com mais de 30 anos de carreira, boa parte dela como backing vocal de artistas consagrados. Seu primeiro CD, A.M.A.T.E.R, resume bem essa necessidade da cantora em mostrar que pode assumir o palco e fazer a canção chegar de forma sublime aos ouvidos daqueles de bom gosto musical. Produzido por Caca Barretto, o álbum conta com 14 canções e faz a ponte entre o clássico e o contemporâneo. Dona de uma voz doce e melodicamente afinada, Cláudia é capaz de nos conquistar da primeira à ultima música, tornando-nos personagens de suas canções. O álbum já é cotado como um dos mais belos trabalhos produzidos na “terra do frevo”.
O CD abre com a música-convite “Vamos a Marte” (Henrique Macêdo/Paulo Marcondes). Nela, a poesia se funde à canção e a doçura que salta da voz de Beija dá o tom da busca da liberdade e da vontade de ser feliz, seja lá onde for. Com um arranjo de cordas e uma percussão que trafega pela melancolia do poema, numa das mais belas do álbum, Cláudia se veste de emoção para, na tristeza do canto, nos agraciar com “Engano Seu” (Diogo Andrade). Neste primeiro trabalho Cláudia abriu o leque para os compositores da sua terra e, dos parceiros Júlio Morais/Ylana Queiroga, gravou “Nossa”. Com uma interpretação impecável a cantora pernambucana gasta seu inglês ao interpretar a “quarentona” “Nothing to Lose” (Henry Mancini/Donald Black).
O tão gravado “Poeta da Vila”, Noel Rosa, ganha de Beija uma interpretação digna de sua canção, “Último Desejo”, que nos transporta para um botequim onde iremos, entre um gole e outro, afogar nossas desilusões. “Terminei Indo” (China/Yuri Queiroga/Jr. Black) é mais uma boa canção dos compositores da cena pernambucana. Na sequência, Cláudia presta uma linda homenagem a uma das bandas mais importantes da música brasileira, a “Banda de Pau e Corda”. Ao gravar “Vivência” (Sérgio de Andrade/Waltinho), de 1973, a cantora entoa as notas solenemente, permitindo-nos voltar no tempo. Um arranjo irrepreensível.
Uma canção mais introspectiva se ouve em “Um Dia Lindo de Morrer” (China), em que a intérprete tem a participação especial do autor. Cláudia investe em seu lado compositora e grava “Eu Saio (Um Dia)” (Cláudia Beija/Caca Barretto). Uma sátira que reflete bem os festivais de música por este país afora, ouviremos em “Só que Deram Zero pro Bedeu” (Luiz Vagner). “O Habitat da Felicidade” (Lula Queiroga/Lucky Luciano) é canção pra se ouvir com a alma. Quer ouvir um bom samba? Então é só aumentar o som em “Samba Tem” (Ze Manoel/Guilliard Pereira). Com participação especialíssima de Elba Ramalho, com quem Cláudia Beija divide os vocais, ouve-se “Flor de Maracujá” (João Donato/Lysias Enio). Para finalizar este primeiro de muitos, uma ciranda praieira em “Fonte” (Caca Barretto/Paulo Marcondes).