quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sim, este som é do Brasil


Edição e revisão: Marsel Botelho
                                                                                                                 

                                                Breno não é deste tempo, ele é passado e futuro. Sua música é atemporal



 
A imersão que iremos fazer neste ribeirão sonoro-poético, devolve-nos a alegria e a certeza de que música e poesia não devem ser separadas, assim como pétala e flor. O jovem pianista Breno Ruiz, no auge de seus 34 anos, criador e iconoclasta, dá vazão à sua inquieta sonoplastia e nos apresenta o CD “Cantilenas Brasileiras”, concebido em parceria com o poeta carioca Paulo Cesar Pinheiro: são 12 temas a desvendar a cada audição. Trata-se de música atemporal, resgatada das entranhas do seu ser em constante troca de emoção com seu estar no mundo. Gravado na Gargolândia e estúdio Dançapé, o disco levou 5 anos para ser mixado e masterizado. Breno teve a companhia de respeito dos músicos e amigos Pedro Alterio (violão), Neymar Dias (baixo acústico, viola caipira), Gabriel Alterio (bateria, percussão) e Igor Pimenta (baixo acústico) e as participações especiais de Mônica Salmaso (voz) e Renato Braz (voz, percussão, efeitos, flautas).

Ao toque de caixa e um piano com respiração pulsante, Breno exalta a voz que já nasceu com identidade de tom e timbre. Abrindo essa audição, ouve-se “Marinheiro do Mar”. A poesia de Cezar Pinheiro encontrou abrigo certo nas melodias de Ruiz: melodias vestidas de fino linho, cerzidas com a linha de um horizonte sem fim, deixando antever o verso que sua voz eternizará. “Estrela Branca” é um lundu e sua viçosa melancolia nos envolve e nos alerta para aquela fria manhã de domingo tentando alcançar a luz. “Flor Lilás” é um chorinho e nos remete aos eternos anos dourados, regados por serenatas e belas jovens nas janelas. A primeira participação especialíssima é da cantora Mônica Salmaso, que, juntamente com Ruiz, canta os versos do “Choro Bordado”. A sequência apresenta três lundus, cuja temática poética é distinta em cada um deles. Paulo Cesar Pinheiro nos convida ao passeio pelo século XIX, onde a música foi pensada. Ouvem-se “Dança de Mucama”, “Roxinha”, “Donana”. A história do pianista e poeta começa há doze anos, quando Paulo Cezar Pinheiro, importante letrista, de prestigiosa carreira consolidada, ouviu o pianista, compositor e cantor Breno. O resultado logo se deu na bela composição “Cantilenas” e muitas outras estão por vir a cada nota do pianista, a cada nova canção vinda ao mundo pelas mãos de Breno.

“Caçada de Onça” tem uma dinâmica muito interessante e nos faz seguir a trilha do felino mata adentro. “Modinha Triste” tem a participação especialíssima do cantor Renato Braz, que, junto ao novo parceiro, entoa lindamente a canção. “Cantinela Sertaneja” é uma modinha, nela o artista desfila sentimentos para toda e qualquer paixão. “Em “Viola do Bem Querer”, novamente a voz de Renato Braz se faz presente e ambos buscam a harmonia nas cordas da viola. Fechando esse mergulho repleto de saudade, de aromas e sabores da infância, ouviremos uma das mais belas canções deste CD dedicado a música brasileira, “Roseira”. Breno é fogo no inverno, a brisa mansa no verão e a melodia dentro da canção, o novo de ontem, de amanhã e sempre.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Tau Pai, Tal Filho


Edição e revisão: Marsel Botelho
                                                                                                                 

                                                            Tau realiza sonho e sobe ao palco com o filho Augusto em uma verdadeira comunhão 



Quando a música é cantada em comunhão com a vida, a poesia que vive lá no mais fundo de cada um toma forma e nos convida a ser parte da melodia. É nessa comunhão que o violeiro, compositor e cantor Tau Brasil, natural de Fronteira dos Vales (MG) e seu filho, o multi-instrumentista, compositor e cantor Augusto Cordeiro, natural de Vitória (ES), uniram-se no CD “Tau Pai, Tal Filho”, gravado ao vivo no Teatro da Biblioteca Pública Luiz de Bessa em Belo Horizonte (MG), para expressar o amor mútuo pela arte. Pai e filho tiveram a companhia dos músicos: Wallace Gomes, Lucas Viotti, Rodrigo Salvador e Banda Trivial. São treze temas nos quais pai e filho compartilham suas mais verdadeiras emoções. “Minhas músicas embalaram o sono dele. É um privilégio poder partilhar o ofício com ele e deixar algo de herança. Estar junto com Augusto no palco é uma grande emoção”, sintetiza o cantador.

Tau contabiliza 25 anos de carreira e seis CDs lançados: “Raridade”/1995, “Trem Bom – Forró à Mineira”/1999, “Astronauta Apaixonado”/2002, “Pelas Ruas de Lisboa”/2007, “Nas Trilhas do Mucuri”/2011 e “Tau Pai, Tal Filho” /2015. Tanto o CD quanto o “show” começaram a ser concebidos em 2012, a partir do desejo de Tau Brasil de ver o filho Augusto executando suas canções. Augusto aprendeu o ofício com o pai e começou a tocar aos sete anos. Hoje, domina violão, guitarra e viola. Acompanha artistas como Pereira da Viola, Wilson Dias e Déa Trancoso. Atualmente, Augusto Cordeiro é aluno da Escola de Música da UFMG.

A primeira canção do “show”/CD “Estrada do Tempo” (Marcelo Vouguinha) tem uma carga de emoção muito grande: seus versos cantados a dois violões falam das coisas do coração e daqueles mais íntimos e sutis sentimentos humanos. “De Minas” (Déa Trancoso) é uma canção que exalta as Gerais de uma forma pictórica e poética colorida no azul do céu, no ouro do sol e no pó das estradas. Autêntica moda de viola se ouve em “Garimpeiro de Amor” (Tau Brasil/Gonzaga Medeiros). Um dos temas mais bonitos do acervo do cantador e violeiro Elomar Figueira Melo nos conduz às margens do Rio Gavião. Tau, que também é um intérprete da obra do mestre Elomar, não economiza na interpretação e nos saúda com a cantiga “Curvas do Rio” (Elomar Figueira Melo). Da vasta obra do inesquecível mestre Gonzaguinha, Tau canta “Preciso”.

O violeiro e cantor Wilson Dias ouve, na voz do amigo, sua canção “João e o Grão”, que fala da religiosidade do homem simples da terra. “Tem coisa que na vida nascem pra ser juntas, nada é capaz de separar”, diz a letra da canção que dá título ao CD “Tau Pai, Tal Filho” (Tau Brasil/Augusto/Eugenio Brito). “Aos Meus Heróis” (Julinho Marassi e Gutemberg) é um tributo ao artista brasileiro. Ainda ouviremos “Semente da Gente” (Augusto Cordeiro/Miguel Gangussu), “Raridade” (T.B), “Te Quero Bem” (Lima Jr) e encerramos com a clássica “Respeita Januário” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira). Tudo isso e mais é Pai e Filho. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Arrivals: Rabecas e Arribaçãs


Edição e revisão: Marsel Botelho
                                                                                                                 

                                                            Caio da vida a cultura popular com música do seu pai.



O artista se eterniza quando acredita na arte que corre em suas veias. A cultura popular, que a cada dia parece ser ceifada, ganha sobrevida com o carioca de nascença, mas radicado potiguar (RN), Caio Padilha, multi-instrumentista, compositor e cantor, lança o CD “Arrivals: Rabecas e Arribaçãs”, uma viagem na companhia do cancioneiro popular, do som da rabeca, do mugido do boi, do cheiro da terra. O jovem artista apresenta canções suas e de seu pai, Almir Padilha, algumas datadas de muitos anos antes dele nascer. São onze temas que merecem uma atenção especial: não é todo dia que se ouve algo tão centrado na matriz musical da cultura popular, onde todos os elementos musicais brasileiros se interconectam e tornam-se referência de todo grande artista. Conheci o Caio durante as gravações do programa Sr. Brasil da TV Cultura, realizado no Sesc Pompeia: na mesma noite, gravamos uma entrevista para a TV Planeta MPB.

Caio, ainda em sua tenra infância, por volta dos seus três ou quatro anos de idade, na casa do padrinho, que era violinista da orquestra sinfônica do Rio, decidiu que queria tocar violino. Logo em seguida ganhou de seu avô paterno o instrumento e passou a frequentar às aulas de música, cujo aprendizado era realizado segundo o método Suzuki. Aos 8 anos, quando se mudou definitivamente para Natal, passou a estudar violino pelo método tradicional europeu. Não se adaptando a esse tipo de abordagem, resolveu abandonar o estudo do instrumento, embora tivesse sido bem-sucedido, chegando a vencer concursos mirins. Tendo estudado teoria musical, seguiu praticando uma diversidade de instrumentos, bem como desenvolveu uma singular afeição pelo piano, que era de sua mãe. Filho de músicos e numa cidade relativamente pequena, Caio conheceu os instrumentistas locais, desfrutando do respeito e do carinho de todos, passou a se apresentar como ator, músico, compositor e intérprete. Nesse entremeio de afazeres, apegou-se intensamente aos instrumentos populares, que não tinham espaços na academia: sanfona, viola caipira e a vistosa rabeca. Passou a dar oficinas desta última dentro e fora do Brasil.

Ouvir os textos poéticos e as canções desse CD é por demais reconfortante, um grande aprendizado, além da imensa satisfação de saber que ainda existe um artista desse naipe. São muitas verdades postas em canções que transcendem o ofício de ser artista. O tema que abre o CD foi composto por seu pai, Almir Padilha, em 1978 e retrata o reencontro com sua terra natal; o despertar daquele sentimento que faz o contraponto com tudo o que está diferente, ouvimos em “Desalinho”. Um belo texto, antes da voz em “Gaiola de Alçapão” (C.P). “Passarim” (Almir Padilha) também traz um texto em versos cantados. Um dos temas mais significantes do CD, “Rabeca Matutina” (C.P), desponta com um solo de rabeca. Essa sonoridade tem laços com a infância. “Citação/Vadiação de Vaqueiro” (Almir Padilha) é uma verdadeira aula de cultura popular. Para conhecer mais sobre esse álbum e esse artista, genuinamente nordestino, que acredita na arte que faz, acesse www.caiopadilha.com

quarta-feira, 29 de março de 2017

Nas Asas do 14 Bis


Edição e revisão: Marsel Botelho
                                                                                                                 

                                                            Fabrício realiza o sonho de uma geração de fãs



 Acreditar nos sonhos, viver em busca deles sem pressa, nem cobrança, apenas acreditar. O destaque desta semana vem da Cidade de Itaperuna (RJ), Fabrício Araújo, que durante cinco anos construiu cada pedaço de um sonho que agora se concretiza com o CD “Uma Saudade, Uma Viagem”, que homenageia seus ídolos do 14 BIS e Flávio Venturini. Produzido pelo próprio Fabrício e Gil Martins, o álbum contém 14 temas do repertório da famosa “banda” e um tema do repertório de Flávio Venturini. Com recursos próprios, Fabrício, que é médico pediatra, desenbolsou importante soma de seu capital ao longo dos últimos cinco anos para nos presentear com esse trabalho muito especial. O CD, que teve uma tiragem de mil cópias, não será vendido, mas doado aos fãs da “banda” que tenham uma história legal para contar.

Tudo começou quando o garoto Fabrício Araújo Aguiar foi apresentado ao som do 14 BIS por amigos de seus irmãos mais velhos, que trouxeram o “vinil” para casa. Foi arrebatador para o jovem que, na época, cursava o bacharelado em Direito. Em 1988, teve a oportunidade de conhecer os ídolos em sua cidade natal, Bom Jesus de Itabapoana, noroeste do Rio de Janeiro, onde se dirigiu, antes do “show”, ao hotel em que estavam hospedados. Fabrício ganhou de Cláudio Venturini uma palheta rosa (“fender medium”), que guarda como um troféu, a sete chaves. Faltava conhecer Flávio Venturini, que se desligou do grupo em 1987, em espetáculo antológico no Palácio das Artes, Belo Horizonte, para seguir carreira solo. Em meados dos anos 90, na Cidade de Campos dos Goytacazes, reuniram-se no palco o 14 BIS, Flávio Venturini e Beto Guedes, tendo sido apresentado por Cláudio a Flávio.

Fabrício realizou um sonho de muitos fãs espalhados por esse Brasil afora. O “Dr. Fabrício” canta, toca teclados e, coincidentemente, tem o timbre semelhante ao de Flávio. A escolha do repertório deve ter sido um martírio: foi em busca do lado “B” da “banda”, que é simplesmente fantástico. Fã e também músico, o paulista Sidney Ribeiro ganhou o CD e escreveu em uma rede social estas palavras: “Amigos, 14 BIS para mim é religião. Uma obra de mais de três décadas de impecável qualidade de letras e arranjos que marcaram minha geração e que há muito tempo vem merecendo um tributo. “Hammonds, moogs, synths”, solos de guitarra, viradas de batera, frases de baixo, tudo muito fiel ao arranjo original.” Fabrício contou com quatro participações especialíssimas: o cantor e compositor gaúcho, Marcelo Pons, canta “Nuvens”; Dênis Guimarães, mineiro de Itabira, “Até outro dia”; João Pedro, filho de Fabrício, 5 aninhos, emociona ao cantar “Caçador de mim”; Cláudio Venturini interpreta “Pele de verão”.

Quer ganhar o CD? Mande um e-mail para fcobrao@hotmail.com, contando sua história com o 14 BIS e receba o CD autografado por esse artista e entusiasta da música, que nos emociona com seu mais que oportuno tributo a um grupo genuinamente brasileiro e um dos melhores de todos os tempos (ainda em plena atividade).




quarta-feira, 22 de março de 2017

A poética em Caipirerê


Edição e revisão: Marsel Botelho
                                                                                                                 

                              Melodista de mão cheia Paulo Henrique encontra em seus parceiros o poema certo para suas canções.



São poucos os discos que conseguem nos conduzir atentos do início ao fim, sem pular uma faixa sequer. Em “Caipirerê”, quinto álbum do cantor, compositor, instrumentista, arranjador, produtor musical e professor, Paulo Henrique. Os temas apresentados foram compostos ao longo de 15 anos, exceto o tema título do CD. Contendo 11 faixas, o álbum foi realizado pela Secretaria de Cultura da Cidade de Mogi das Cruzes (SP), terra natal do artista.

PH é um compositor que capta a alma poética de seu parceiro letrista: sabe para quem mandar a melodia que vai ser vestida por verdadeiros poemas. O artista contabiliza esses CDs: “Baião Mineiro” (2003); “Lavando a Alma” (2008), com o parceiro Paulinho Pedra Azul; “Noite Brasileira” (2011); “Canto a meu Povo” (2016), com o parceiro Pedrão.

A canção que abre o CD, “Serra do Itapety” (PH/Henrique Adib), é uma declaração de amor à flora e fauna da rica região de Mata Atlântica da Serra de Mogi e adjacências. O arranjo é simplesmente lindo e o coro de crianças canta versos assim: “Cedro, seringueira, pau-ferro, pau-brasil/Suinã, paineira, quaresmeira/Quem te viu?/Mocho, pintassilgo, joão-de-barro, anu, araçari/Jabuti, tatu, gambá, esquilo, porco-do-mato, quati.” Aula em formato de canto, coisa que não se vê mais na escola. Nesse CD, não tem música com letra que reflita apenas o falar coloquial, mas melodias que carregam um estrato poético vigoroso. Em “Violeiro Solitário” (PH/Júlio Bellodi), destaque para as harmonias de Luizinho do Acordeon e o solo de viola caipira de João Paulo Amaral. Os vocais de Bia Mello e Mariana ajudam a abrilhantar o que já é belo ao entoar: “Sou mais um violeiro, mais um violeiro tão só/Trago uma mágoa no peito, que na garganta forma um nó/ Que me faz querer viver e me faz querer cantar.

Uma modinha daquelas de sensibilidade única, como aquele olhar do amor um dia contemplado solitariamente em divagações juvenis: “Lua Vaga” (PH/Julio Bellodi), o arranjo é de tirar fôlego. A canção que dá titulo a essa viagem musical, “Caipirerê” (PH/Juca Filho/Murilo Antunes), é uma parceria especial de PH com os poetas Juca Filho (carioca) e Murilo Antunes (mineiro). Com Paulinho Pedra Azul, PH compôs a autêntica moda de viola “Quem te escuta se apaixona”. O moleque travesso é cantado nesse tema que mergulha na magia do imaginário do ser e do estar no mundo. O “saci” das narrativas míticas, lenda indígena africanizada, esquecido nas páginas das fábulas brasileiras, tem seu resgate na canção “Um Pé” (Henrique Adib).

A canção indígena “Muiraquitã (PH/Murilo Antunes) tem, em seu arranjo instrumental e vocal, a beleza emoldurada da poesia de Antunes, que conta a lenda de Muiraquitã. O vocal de crianças novamente é o grande achado. O baião “Entrevero” (PH/Murilo Antunes) desafia o entressono e o desadormecer. Uma pintura melódica se encontra em “Cantinela do Vampiro e da Mulata” (PH/Paulinho Pedra Azul). Um maracatu para Drummond e Cabral se ouve em “Fogo Cruzado” (PH/Julio Bellodi). Fechando a audição, ouve-se “Descaminhos” (PH/Murilo Antunes). Impossível mesmo é escolher a melhor canção. Compre seu CD pelo Email: peaga2106@gmail.com