quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Das canções mineiras ao rock progressivo

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


Eles são cariocas, mas resolveram registrar em CD suas infinitas influências dos artistas mineiros que cultuam, como Beto Guedes, Lô Borges, Milton Nascimento, Flávio Venturini e bandas como Sagrado Coração da Terra, 14 Bis, O Terço, além das progressivas Pink Floyd, Marillion, Yes, Rush, Jethro Tull e Genesis, que eles cresceram ouvindo. Essa é a banda Únitri, formada por André Zichtl (guitarra, violão, programação, backing vocals), Danilo Ferreira (vocal, violão), Rômulo Lima (baixo, teclado, bass pedal, backing vocals) e Michel Melo (bateria, percussão).
O CD “Minas, Cantos e Quintais” apresenta 12 canções e tem a produção assinada pelo mago e lenda do rock progressivo nacional, Sérgio Hinds. A primeira faixa, “Canção” (André Zichtl/Danilo Ferreira) é a comprovação de que os meninos beberam forte nas fontes citadas. “Minas” é cantada de forma sublime e nos remete a discos clássicos como Espelho das Águas, do 14 Bis. Danilo Ferreira entoa as notas como se tivesse nascido lá – seu canto tem a melodia e harmonia mineiras e, em alguns momentos, chega a lembrar o timbre de Cláudio Venturini. Ele foi o último a entrar na banda e é dele a “mineirice” embutida nas composições. “Minas, Cantos e Quintais” (Danilo Ferreira) é um passeio sonoro pela Estrada Real, pelos pomares, pela religiosidade tão presente, pelas esquinas de um “Clube”, pelo voo imaginário do 14 Bis. Vale fazer essa viagem. Regravar um clássico como “Criaturas da Noite” (Flávio Venturini/Luiz Carlos Sá) é de uma responsabilidade ímpar. Com participação de Sérgio Hinds dividindo os vocais, os garotos do Únitri ainda contam com Raphael Montechiari ao piano. A grande surpresa fica para o final da canção, quando eles entoam os vocais, emendando “Pequenas Coisas” (Cezar de Mercês/Sérgio Magrão), música do álbum Além Paraíso, do 14 Bis, de1982.
A mistura entre poesia e melodia faz nossos corações explodirem de amor, numa sensação indefinida, ao ouvir “Diamante” (André Zichtl, Rômulo Lima, Danilo Ferreira). Destaque para o solo de “sint” de Raphael Montechiari. Com participação especial de Marco Aurêh na flauta, “À Mostra” (André Zichtl/Rômulo Lima) é mais um tema que imprime a poética mineira em sua melodia. “Agora” (André Zichtl/Rômulo Lima/Marta Sódre), com sua singeleza “à la” Anos 70, é emoção na certa.
Aperte os cintos que a coisa vai ficar séria. A partir desse momento, a viagem é por solos de guitarras, moogs, flautas e vocais elaborados. Aqui o som é passageiro do infinito, a música flutua por megatons no espaço. Ouviremos os progressivos que nos remetem ao encontro inusitado do Pink Floyd com o Jethro Tull nas trísceles “Trans Somnia” e “Zênite” (Rômulo Lima), e “Luna” (André Zichtl). “Orion” (Rômulo Lima), “Luz” (Fábio Macedo/Eugênio Zicti) e “Arcárdia” (André Zichtl/Rômulo Lima/Eugênio Zichtl/Danilo Ferreira) fecham a audição. Únitri é isso: a comunhão da poesia mineira e sua rica harmonia com a viagem sonora dos solos progressivos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Gabriel Sater

Agradecimentos Especiais a Patrícia Chammas


Compositor, cantor, ator, arranjador e instrumentista, o jovem Gabriel Sater tem em seu DNA a arte que herdou do pai, Almir, mas o grande diferencial é que o artista caminha com suas próprias pernas e batalha seus projetos como todo o músico independente. Gravou seu primeiro CD, “Gabriel Sater Instrumental”, em 2006. Com intervalo de três anos lança o segundo trabalho, “A Essência do Amanhecer”. O recém-lançado “Indomável” é o terceiro da carreira que, produzido por ele e Leandro Aguiari, nos apresenta 13 canções, sendo uma instrumental. Quando digo que esse jovem cantor caminha com autonomia, quero dizer que ele não utiliza do forte sobrenome para tirar vantagens, pois trata-se de um artista nato que corre atrás de seus ideais com todas as dificuldades que, conhecidamente, há no percurso.
O CD abre com “Nas Montanhas de Minas” (G.S.), uma singela declaração de amor musicada para a amada Paula Cunha. Gabriel também sabe poetizar melodias. A segunda canção, “Boca do Mato”, é a primeira parceria com Luiz Carlos Sá – o Sá, parceiro de Guarabyra, que é uma das novidades do álbum – e traz seu pai, Almir Sater, tocando a viola de 10 cordas. A audição desta canção tem cheiro de terra, traz a saudade do amor deixado para trás, mas possível de ser reconquistado.
Sabe quando você procura a beleza? Você a encontra na terceira faixa do trabalho, “Agridoce” (Gabriel Sater/Leandro Aguiari/Luiz Carlos Sá) – poesia e melodia em uma dança matinal para o amor: “Vamos lá/O amor nos há de guardar/E proteger”. Uma canção típica do pantanal mato-grossense é o que ouviremos em “Quero ou Não Quero” (Gabriel Sater/Luiz Carlos Sá). A participação especial da tia Gisele Sater, dividindo os vocais com o sobrinho, dá o tom da festa. Quando você pensa que ouviu “a” música do CD, aparece outra melhor que a anterior, fazendo-nos imergir nessa trilha que canta o amor, a natureza e a paz interior. “Aonde Você For” (Gabriel Sater/Leandro Aguiari/Luiz Carlos Sá) tem um belo arranjo de cordas que serve como moldura para a poesia cantada por Sater. “Vida, Bela Vida” (Guilherme Rondon/Paulo Simões) traz o dueto de Gabriel com Fernando Anitelli (O Teatro Mágico). “A brasa/Que queima meu coração/Vem do fogo dos teus cabelos/Doce paixão”, diz a letra de “Cabelo de Fogo” (Gabriel Sater/Luiz Carlos Sá). Gabriel convida o dono de uma das vozes mais belas de Minas, Tadeu Franco, para cantarem “Condor Peregrino” (Gabriel Sater/Fernando D’Andréa). Emocionante.
Em “Ciranda” (Gabriel Sater/Alexandre Lemos) o suingue das cordas e a poesia na ponta da língua valem a audição. Sá divide os vocais e assina a letra em parceria com Gabriel Sater e Leandro Aguiari na singela “Lembranças Demais”. Para finalizar a audição do belo CD, seguem “Um Novo Amanhã Agora” Gabriel Sater/Daniel Rondon) e “Meu lugar” (Gabriel Sater/Leandro Aguiari/Cesar Leite). Relembrando o início da carreira, iniciada com um CD instrumental, o músico finaliza o álbum com “Indomável” (G.S.), canção que homenageia Almir.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Zé Kéti visitado em voz e violão

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


A voz, o violão e a saudade de Zé Kéti (1921-1999) é o que se ouve neste mergulho nas 12 canções do compositor carioca aqui representado pelo cantor Augusto Martins e pelo violonista Marcel Powell, no CD “Violão, Voz e Zé Kéti” – mais um produto do selo e gravadora Kuarup. O sambista já havia sido homenageado em vida pelo cantor capixaba Zé Renato com o álbum “Natural do Rio de Janeiro”, de 1996. Acho de suma importância para a memória da música brasileira um resgate como este, visto que o repertório de Kéti é extremamente rico e merecedor de ser atualizado junto às novas gerações.
Zé Kéti, registrado José Flores de Jesus, foi um dos maiores compositores de samba que este país já conheceu. Portela de coração, começou a atuar na década de 1940 na ala dos compositores, mas deu à luz sua primeira marcha carnavalesca a partir do terceiro ano. Em 1951 obteve seu primeiro grande sucesso com o samba "Amor Passageiro", em parceria com Jorge Abdala, imortalizado por Linda Batista na gravadora RCA. Em 1955 sua carreira começou a deslanchar quando "A Voz do Morro", gravada por Jorge Goulart, com arranjo de Radamés Gnattali, se destacou na trilha do filme "Rio 40 Graus" (1955), de Nelson Pereira dos Santos. Outro sucesso nos anos cinquenta foi "Leviana", incluída no mesmo filme. Participou do espetáculo "Opinião", ao lado de João do Vale e Nara Leão em 1964. Nele, apresentou os temas "Opinião" e "Diz que Fui por Aí". Recebeu da Portela, em 1977, um troféu em reconhecimento ao seu trabalho. Em 1996 lançou o CD "75 Anos de Samba". Um ano antes de seu falecimento ganhou o Prêmio Shell pelo conjunto de sua obra: mais de 200 músicas lançadas.
Dono de uma voz grave e aveludada, e com técnica apurada, o cantor carioca Augusto Martins ganha o luxuoso acompanhamento do violão do também carioca Marcel Powell, filho e discípulo do inesquecível mestre Baden Powell. Nas 12 músicas constatamos a química certa entre a voz de Martins e os acordes que emanam das cordas de Powell. A batida tão tradicional da percussão aqui é trocada pelas que vêm de dentro do peito, acompanhando os dois músicos. O tamborim e até os naipes de metais parecem soar em algum lugar, mas ficam por conta de nossa imaginação. Essa dupla vai fazer você subir o morro na cadência dos sambas: “Diz que Fui por Aí” (Hortêncio Rocha/Zé Kéti), “Tamborim”, “Nega Dina”, “Opinião”, “A Flor do Lodo”, “Malvadeza Durão”, “Leviana”, “Madrugada”, “Acender as Velas”, “Máscara Negra” (Pereira Mattos/Zé Kéti), “Amor Passageiro” (Jorge Abdala/Zé Kéti) e “A Voz do Morro”.
Este não é apenas um CD de releituras – ele traz a essência de Zé Kéti. Não é necessário conhecer seu trabalho para sentir sua música cantada com primazia e tocada com requintes de clássicos. Sente-se no som o respeito pela obra que foi cuidadosamente desenvolvida, dos arranjos à capa, simples e original.
Um brinde a Augusto e Marcel, por nos presentearem com o bom samba da inesquecível voz que cantou o Carnaval e seus amores.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Alceu sinfônico

Agradecimentos especiais a Patrícia Chammas


A comemoração dos 40 anos de carreira do eclético Alceu Valença vem nos brindar em grande estilo com o DVD/CD “Valencianas”, gravado ao vivo com a Orquestra Ouro Preto e lançado no último 26 de agosto, com pré-venda para hoje. O encontro entre Alceu e o maestro Rodrigo Toffolo aconteceu em 2010 por intermédio de Paulo Rogério Lage, que assina a produção, e que também é amigo de Toffolo e compadre de Valença. Foi mais de um ano e meio de pesquisas e conversas entre Alceu, Rodrigo e o arranjador Mateus Freire para chegarem às 13 canções da lista de 40 sugeridas pelo músico pernambucano – a maior parte delas vinda dos Anos 1980. O primeiro concerto ocorreu em abril e a gravação do DVD/CD, em novembro de 2012, no Palácio das Artes, na capital mineira.
O violinista Mateus Freire, além de arranjar o trabalho, compôs uma suíte para a abertura, onde faz citações da obra do artista, mescladas a elementos do, também nordestino, Movimento Armorial. A Suíte Valenciana é composta por: “O canto do marimbau e a rabeca num cordel de amor”, “O lamento no cangaço e o aboio no futuro” e “O martelo alagoano e o canto do marimbau”. Simplesmente uma obra de arte dando boas-vindas ao que vai se ouvir pela frente, quando Alceu toma seu lugar no palco e nos presenteia com uma sequência de quatro canções: “Sino de Ouro” (Alceu Valença/Carlos Penna Filho - Estação da Luz - 1985), “Ladeiras” (A.V. - Maracatus, Batuques e Ladeiras - 1994), “Cavalo de Pau” (A.V. - Cavalo de Pau - 1982) e “Coração Bobo” (A.V. - Coração Bobo – 1980).
A terceira parte do concerto é toda instrumental e executada apenas pela orquestra, que nos oferece mais quatro temas, abrindo com a clássica “Talismã” (Alceu Valença/Geraldo Azevedo), do disco de estreia, Quadrafônico - 1972. “Geraldo Azevedo faz parte de mim. Talvez eu não existisse como artista se não o tivesse conhecido. Foi Geraldo quem quebrou minha timidez em relação à música”, escreve o artista em seu site oficial. Seguem-se “Estação da Luz” (A.V. - Estação da Luz - 1985), “Porto da Saudade” (A.V. - Cinco Sentidos - 1981) e o frevo “Acende a Luz” (A.V.), que sacudiu o público.
A quarta e última parte do concerto traz Alceu novamente ao palco e o seu fiel escudeiro, Paulo Rafael, na guitarra e no violão. Antes de cantar “Junho” (Alceu Valença/Geraldo Valença), o artista conta a história do seu pai que o cobrava que musicasse o poema do tio Geraldo, além de afirmar que o tio era um grande poeta. Dando continuidade, Alceu emplaca “La Belle de Jour” (A.V. - 7 Desejos - 1991) e “Girassol” (A.V. - Leque Moleque - 1987). A clássica “Tropicana” (Alceu Valença/Vicente Barreto) fez o público delirar. Para finalizar e deixar um gostinho de quero mais, outra clássica, “Anunciação” (A.V. - Anjo Avesso - 1983).
Alceu sinfônico é o erudito emprestando sua sonoridade cheia ao popular para receber em troca a alegria, a leveza e a meninice do coco, da embolada, do cordel, fazendo músicos e público dançarem em suas cadeiras. Vale conferir cada momento do encontro entre essas duas cidades, Olinda e Ouro Preto.
                                                  

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Para ouvidos sensíveis

Foto: Alessandra Fratus
Agradecimentos Especiais a Patrícia Chammas


Certos CDs demandam um ritual específico na audição, pela qualidade poética e instrumental que apresentam. “O Tempo e o Branco”, sexto CD da cantora Consuelo de Paula, é um desses casos, que nos permite uma reflexão profunda e nos revela um mundo desconhecido entre o belo e o perfeito, o amor e o tempo. Consuelo é artesã, constrói poemas e os transforma em música. Produz, roteiriza e dirige suas crias para nos doar.
Acompanhada por Toninho Ferragutti (acordeon) e Neymar Dias (viola), Consuelo de Paula nos presenteia com 13 canções, sendo 11 em parceira com Rubens Nogueira (in memoriam). A poesia de Consuelo e a melodia de Rubens vão contagiar e roubar a lágrima retida de uma saudade.
Cecília Meireles foi a fonte de inspiração deste trabalho. A artista mergulhou nas águas cristalinas da poetiza para dar forma à sua obra. Quando escrevo que este trabalho é para ouvidos sensíveis, digo que seu som não se deve ouvir alto – há de se deixar a leveza de cada acorde penetrar os tímpanos e exalar na pele em forma de emoção. “Revoada” é a primeira canção que já nos arrebata. Na introdução traz um diálogo entre o acordeon e a viola, contemplando uma conversa imaginária entre Cecília e Consuelo. “Canto sol e ar/Eu canto para caminhar/Flor de sobreviver/Fazer correnteza/Recomeçar/E partir, virar poesia” dizem os versos de “A Flor do Arco-íris”, canção que a revela o ofício de passarinho, com seu canto que convida a passeios por sabores e fragrâncias.
Na terceira canção, “O Meu Lugar”, a artista nos atrai para seu quintal, seu pomar, seu terreiro. Consuelo busca no verso “Falar contigo pelo deserto” (C.M.) inspiração para escrever o poema “Entre Desertos”, que nos remete mais uma vez à sua morada, deixada para trás em busca do amor. A quinta canção nos envolve como um balé matinal. A beleza de seu poema se funde à melodia soprada pelo fole de Ferragutti e as cordas de Neymar em “Ente o Céu e a Terra”.
“Timbre” é a primeira canção do CD que a artista assina sozinha, com inspiração no poema “A Vizinha” (C.M.). Desafio os leitores dessas linhas se, ao ouvirem “Arte”, sétima canção deste brinde ao bom gosto, não forem tomados por uma forte emoção, a despejar um rio de lágrimas face afora. “Outro Lugar” – mais um momento rico em harmonia e poesia – foi inspirada em “Pela Flor Amarela Viajaremos” (C.M.). Essa excursão de Consuelo por caminhos cecilianos deve ser compartilhada entre nós, amantes da boa música. “Luiza” foi composta após o deleite da leitura de “Lua Adversa” (C.M). “Deve haver música em seus dedos/Um barco que navega ao longe”, canta emocionada na décima canção, “Cecílias e Dálias”. Com destaque para o belo arranjo, ouviremos “Sincera” (C.P.). “Testamento” faz um contraponto com “Herança” (C.M.) – descubra os caminhos. Para finalizar esse mergulho no universo de Cecília Meireles, a convite dessa fazedora de arte, ouviremos “Asa Ritmada”.
Quer saber mais sobre a artista minera e sua obra? Visite o site www.consuelodepaula.com.br.